Pico da Vigia

Pessoas, estórias, costumes e tradições da Fajã Grande das Flores, Açores no início dos anos 50 e breves abordagens a alguns acontecimentos da actualidade.

Chegámos finalmente ao Risco, iniciando a descida da rocha. Agora já não nos voltaríamos a perder porque, por um lado, apesar de íngreme, a rocha tinha uma vereda bem delineada e, por outro, a lua surgira, finalmente, por cima da rocha dos Paus Brancos, clara e iluminadora, desfazendo, decididamente, a total escuridão que nos acompanhara até agora e a que os nossos olhos como que já se tinham habituado.

Iniciámos a descida. Segundo a douta estimativa do meu progenitor, já devia passar muito da meia-noite. Regozijei-me. É que sentir, naqueles descampados escuros e solitários a terrifica hora da meia-noite, teria sido fatídico para a minha imaginação. A meia-noite era a hora má, plena de aparições fantasmagóricas e contactos com o diabo. Convenhamos que um encontro, naqueles páramos, com o mafarrico, mesmo que fosse apenas na minha imaginação, não seria o mais aconselhável para a minha já débil audácia, pese embora contasse com a protecção de meu pai, um verdadeiro ateu, nestas crenças.

A rocha da Ponta é um alcantil escarpado, abrupto e a pique. A única e sinuosa via que possui é uma vereda, um aclive íngreme e sobranceiro ao mar. Sítios há, em que pedregulho, objecto ou pessoa que caia, vem direitinho parar às águas do Atlântico, a não ser que antes se desfaça ou esborrache nas fragas e penhascos que nela proliferam.

Eu descia-a, encantado com o luar de que agora desfrutava, opondo-se à escuridão que me envolvera toda a noite. O espectáculo que observava era deslumbrante e maravilhoso! O luar, projectando-se no mar, transformava-o num espelho prateado e cristalino. Lá longe já se vislumbrava o casario da Fajã e a tímida luzinha do farol da Ponta do Baixio. O Pico da Vigia, sobranceiro ao povoado, projectava, no mar, uma sombra clarificante que se difluía, com lenidade, no oceano. O silêncio da noite apenas era cortado pelo ritmado bater das ondas junto à costa. No Rolo, circundante à grande Baía, onde se vislumbravam os montículos arrumados do sargaço, simulando aldeamentos escuros, perdiam-se ondas infinitas de prata e de espuma.

A certa altura, abstraído em tão paradigmática contemplação, sem me aperceber, meti um pé em falso num pequeno riacho, tropecei e estatelei-me de tal forma que o meu corpo ficou a balouçar entre cai e não-cai, à espera de rolar pela falésia, atingindo o oceano. Foi meu pai que, lesto e hábil, me agarrou, impedindo-me de rolar pelo íngreme barranco e cair no fundo do precipício. O resultado foi um enorme susto para ele e um grande galo para mim, o qual me impediu, radicalmente, de continuar a fruir a excelência e beleza daquela paisagem nocturna.

Chegámos às primeiras casas da Ponta. Luz, apenas na pequena lâmpada da capelinha de madeira da Sra de Fátima, fruto da exima devoção à virgem do António Simão e marco protector dos viajantes que se dispunham a subir a temível e perigosa rocha. Meu pai decidira que tínhamos que parar na Ponta. Estávamos exaustos, famintos e cansados e o meu galo crescia cada vez mais. Mais adiante, uma luz, a única em todo o reduzido casario. Meu pai bateu à porta. Conhecia muito bem o dono. Eu já nada podia decidir ou opinar.

A porta abriu-se imediatamente. Uma das filhas do Maurício Esteves assumiu, aflita e sobressaltada, de candeeiro em riste, gritando:

- Já chegaram!? Já chegaram!? Entrem, entrem depressa!

Nós, pasmados, hesitantes e perplexos.

Só depois de entrarmos ela explicou, chorosa e triste, que o pai estava nas últimas e o irmão mais velho tinha ido a pé, aos Terreiros, esperar o Dr João Alves, que vinha de Santa Cruz, de carro, para depois lhe fazer companhia. A partir dos terreiros faria o trajecto a cavalo, mas àquela hora da noite, bem necessitava de companhia. Julgara que eram eles e, quando se apercebeu de que éramos nós, ficou decepcionada. O pai piorava de instante para instante e, temia-se que, quando o médico chegasse, já nada pudesse fazer. Abeirámo-nos do leito escurecido em que expirava o velho Esteves e onde reinava um misto de choro e amargura. Ao lado, os filhos, alguns vizinhos e amigos e a candidata a viúva, que ocupava lugar de destaque, junto à cabeceira do moribundo

Meu pai, depois de se inteirar do estado de saúde do agonizante e das causas de tão inóspito acometimento, pediu uma faca, cuja lâmina fria colocou sobre o emérito galo que eu conquistara na descida da rocha, o qual, lenta e progressivamente, foi reduzindo o seu volume, embora não desaparecendo totalmente.

No velho relógio da sala bateram duas horas. Enquanto o moribundo continuava a agonizar, lançando por vezes alucinantes e dolorosos estertores, já alheio a tudo o que o rodeava, e os circundantes tentavam encobrir e disfarçar choros e soluços, decidimos dar continuidade à parte final, por certo a mais fácil, do nosso atribulado percurso.

CAMINHANDO PELA NOITE

Iniciámos, então, uma desconexa e terrífica inambulação que, inevitavelmente, nos conduziria ao pélago. Meu pai confiara de mais no conhecimento que julgava possuir de tão inóspitos andurriais, reconhecendo, finalmente, que, no escuro da noite, era muito difícil andar por ali. É que as pastagens dos matos de Ponta Delgada, como aliás as de toda a ilha, não possuem caminhos, são apenas detentoras de pequenos atalhos ou trilhos delineados pela passagem, espaçada, de homens e animais

Era precisamente por uma dessas pastagens que eu caminhava, agora, bem agarrado à mão de meu pai, cheio de medo de tudo e de nada, ora horrorizado com os aulidos de algum touro que, repentinamente, surgia ao nosso lado, ora assustado com ecos simbólicos e fantasmagóricos de ruídos estranhos que, no escuro da noite, se faziam ouvir de todos os lados.

De repente, à nossa frente, sem que déssemos conta, surgiu um inopinado tapume de hortênsias. Cancela, nem vê-la. Meu pai furou o tapume, mas a separá-lo da propriedade seguinte estava um arroio repleto de fetos e cana-de-roca. Calou-se, por momentos e, depois, exclamou:

- Estamos perdidos!

Eu emudeci, perante tal parrésia. Mesmo que quisesse não podia responder-lhe ou fazer qualquer sugestão. Sentámo-nos, calados, na erva fria, já perene de sereno. Fixámos, imóveis e silenciosos, o nosso pensamento no infinito escuro e no amanhecer distante.

Passado algum tempo, meu pai, como que despertando duma profunda letargia, pensando que eu já adormecera, sacudiu-me e ordenou:

- Álvaro, descalça os sapatos!

Não lhe obedeci. Pensei que delirava e assustei-me ainda mais. Ele, porém, repetiu a ordem com tal veemência que fui obrigado a obedecer-lhe.

Descalcei os sapatos e entreguei-lhos. Ele, dando um nó no extremo da manga de um casaco que trazia ao ombro, guardou-os. Depois, um pouco mais calmo, explicou-me:

- Agora vais andando à minha frente, andando com cuidado, sentindo a relva debaixo dos teus pés, até encontrares o sítio onde ela está amachucada. Assim descobriremos o atalho.

Comecei a andar, maquinalmente, na escuridão, como se estivesse a jogar à cabra-cega, num espojadoiro. A estratégia, porém, resultou excelentemente. Algum tempo depois, encontrei o trilho. Recomeçámos a marcha lenta e cautelosa. Agora era eu o guia e disso me ufanava. Habituado a andar descalço pelos campos e caminhos, ia facilmente sentindo, debaixo dos meus pés, a erva amachucada e calcada, por onde nos dias anteriores tinham transitado os homens e os animais.

Passado algum tempo, porém, meu pai mandou-me parar. Cuidava ele que estávamos perdidos outra vez. Não tínhamos saído fora do atalho, porque isso os meus pés descalços não me enganavam; perdêramo-nos sim, na direcção. O meu progenitor não sabia se caminhávamos para sul, na direcção da Fajã, ou se pelo contrário regressávamos a Ponta Delgada. Ele, porém, decidiu continuar a andar na mesma direcção, apesar da minha pronta, frontal e resistente oposição.

Andámos, até chegar a uma parede. Eu, já exausto e sonolento, sentei-me! Meu pai, aproximou-se dela e, com as suas mãos calejadas, acariciou-a, levemente, de ambos os lados. Depois, com muita determinação e certeza, disse-me:

- Íamos enganados. Nesta direcção, regressávamos a Ponta Delgada. Vamos voltar para trás, porque a Fajã é na direcção contrária.

Reiniciámos a nossa marcha, sempre no escuro, mas agora na direcção certa e segura, enquanto meu pai me explicava que as paredes e os muros voltados para o norte recebem menos sol e, por isso, têm mais humidade e, consequentemente, mais musgos e ervas. Fora isso, afinal, que ele detectara quando acariciou a parede, descobrindo de que lado ficava o norte. Depois foi só voltar em sentido contrário, porque a Fajã ficava a sul. Era esta a direcção certa e desejada.

Caminhámos, horas a fio, na noite, no medo e no escuro, lutando contra o sono e a constante indefinição dos atalhos!

 

O dia aproximava-se do fim. Meu pai, apercebendo-se disso e, porque sentia que a sua missão estava cumprida, decidiu voltar para casa. Nem os veementes e imperiosos pedidos de mestre António, nem o convite gracioso e meigo de dona Josefa, oferecendo hospedagem, o demoveram do tão impertinente carracismo.

Partimos!… Na torre da Igreja de São Pedro, soaram três espaçosas badaladas, seguidas de duas consecutivas. Era o som religioso das Trindades que anunciavam o anoitecer. Os homens regressando dos matos, ao lado de azémolas carregadas de bilhas e latas de leite, tapadas com ramos de queirós, tiravam, solenemente, o boné e simulavam uma pequena oração. Velhinhas vestidas de negro e bioco a tapar-lhe a cara, sentadas às janelas de suas casas, esbagoavam as contas do rosário, bichanando imperceptíveis ave-marias. Mulheres robustas e mal vestidas, algumas pejadas, recolhiam a casa, com molhos de lenha ou de couves à cabeça acompanhadas de garotos descalços, com monco a escorrer-lhes pelo nariz e agarrados aos saiotes. Vendo meu pai todo geringoto, traçando o rumo duma caminhada que, de certo, a noite iria supinamente obstaculizar, formulavam-lhe convites sucessivos e sinceros, disponibilizando caldinho de couves para a ceia e dormida. Todos eram de opinião de que não eram horas de se fazer ao caminho do mato, ainda por cima acompanhado duma criança.

Mas o persistente carracismo de meu pai, mais uma vez imperou. Rejeitava linearmente todas as ofertas de hospedagem, como aliás já acontecera em casa de mestre António Algarvio. Aí, o homem quase se zangara! Por isso, o meu progenitor tinha agora outro argumento, para justificar a sua decisão: não ficara em casa de mestre António, não ficava em nenhuma outra.

Caminhámos!… Ao descoser do derradeiro casebre da freguesia, já a noite caíra, fria, silenciosa e escura. Muito escura! Para trás ficavam os campos, cobertos de milho loiro, amarelado e fulvo e as famílias reunidas à volta das tigelas de leite e broa, acompanhadas de um caldo de couve onde não faltava a talhadinha de toucinho. Era o jantar tradicional e habitual das gentes da ilha.

Entrámos decididamente nos matos e na escuridão. Tínhamos pela frente a árdua tarefa de atravessar, durante a noite, de norte para sul, uma quarta parte da ilha das Flores, sem caminhos, através de pastagens separadas por cancelas e tapumes de hortênsias, chegar ao Risco, descer a íngreme rocha da Ponta e, só então, encontrar um caminho digno de tal nome, que nos conduzisse a casa. A única esperança era a lua. Esta, porém, contrariamente às expectativas de meu pai, tardou em aparecer.

 

António Alves da Costa Cabreira, conhecido em toda a ilha por mestre António Algarvio, era um homem alto, esbelto e elegante. Aparentava os seus sessenta anos, cabelos grisalhos, olhos azuis, sempre muito atentos nos dos seus interlocutores. O que mais o caracterizava, porém, era um altivo, descomunal e garboso bigode, que se salientava no rosto oval, do qual lhe ocultava grande parte, e que constituía grande motivo de orgulho para o seu proprietário, que despendia muito tempo e grandes cuidados na sua manutenção, nomeadamente, no asseio das enormes pontas, para as quais como que já institucionalizara o hábito de, constantemente, as retorcer e anafar. O enorme bigode, apesar de grisalho, apresentava, no centro, uma mancha amarelada, que levemente se difluía nas regiões limítrofes e que era o resultado plausível do seu declarado e assumido vício de fumador. Tinha uma voz forte e ríspida, com um acentuado sotaque continental, mais concretamente do Algarve, donde era natural. Essa era, aliás, a razão de ser do seu epíteto.

Nascera em São Bartolomeu de Messines, a terra das pedras de amolar. Mas não era a razão principal pela qual mestre António Algarvio se blasonava da sua terra natal. Segundo ele, São Bartolomeu de Messines fora um eficiente baluarte miguelista, pois foi lá, junto à ermida de Sta Ana, que as forças apoiantes de D. Miguel infligiram, em vinte e quatro de Abril de 1834, pesada derrota às forças liberais, bem mais numerosas e melhor apetrechadas, comandadas pelo Marquês de Sá da Bandeira. Com ar garboso, acrescentava mestre António, que esta vitória se deveu ao sábio e eficiente comando dum valoroso general Tomás António da Guarda Cabreira, seu antepassado e acérrimo defensor da causa miguelista. Não ficavam por aqui, contudo, os pergaminhos da ilustre e ditosa pátria de mestre António – foi em São Bartolomeu de Messines que veio ao mundo o ilustre vate João de Deus e acrescentava:

- Ainda lá está a casa onde nasceu e viveu o poeta.

Recebeu meu pai com grande satisfação e alegria. Sentado num enorme cadeiral de vimes, enrolado num grosso cobertor de papa, ia contando, de forma dramático-cómica, como era seu timbre, os pormenores, incluindo os mais insignificantes, da sua viagem à Terceira, em quase tudo semelhante à que meu pai realizara três anos antes: -  operação ao estômago, Dr Gago da Câmara, rua da Garoupinha e o velho e monacal hospital de Angra. Enfim, alanzoava-se num aranzel leptológico que lhe era tão peculiar e que contrastava seriamente com a senga e tímida elocução do meu progenitor.

Eu, sentado numa cadeira, muito tímido e quietinho, totalmente alheio a tão desinteressante diálogo, despertei, de imediato, as atenções emocionalmente caritativas da dona Josefa, eminente consorte do nosso anfitrião, que acumulava, simultaneamente, as funções de cozinheira, cargo que, na opinião de mestre António, exercia com desusada competência. A ilustre senhora, exercitando a sua acutilância de investigadora assumida dos destinos do próximo, apercebeu-se, de imediato, do meu estado de famélica debilidade. Num acto de extrema curialidade, sem me consultar, trouxe-me uma enorme tigela de leite fresquinho acompanhado de vitualhas diversas. Envergonhado, manifestei simulada recusa. D. Josefa, no entanto, não era para cerimónias e, embora timidamente, tive que aceitar. Tal repasto produziu em mim um efeito retemperador. Não fosse o temível e odiento séter, sentado ao portão, impedindo a entrada ou saída de qualquer mortal, eu já tinha abalado, na qualidade de objector de consciência, aos efusivos e triviais discursos do ilustre descendente do general Cabreira.

 

Quando acordei, já estavaem terra. Foramestre Gregório que, compadecendo-se mais uma vez do meu sofrimento, me pegara, cuidadosamente, ao colo e me pusera definitivamente em terra firme.

Ponta Delgada situa-se na parte mais setentrional das Flores, numa suave encosta, sobranceira ao cais e a uma pequena baía ladeada pela ponta que lhe deu o nome e pela Ponta do Ilhéu e estende-se, longamente, por uma ampla e verdejante planície, onde salpicam as casinhas pintadas de branco. Próxima do cais, onde varou o São Pedro, sempre sobre as ordens radicais e lineares de mestre Gregório, confunde-se com ele e insere-se num todo que permite aos viajantes e turistas, sem grande esforço, atingir rapidamente o povoado. Esta exímia e curta distância facilitou, obviamente, a minha débil e tonta capacidade de me movimentar, originada pelo marelhar constante e contínuo, sentido ao longo de três horas de viagem e que ainda pesava sobre mim. Mesmo em terra, continuava a sentir o corpo entorpecido, nauseabundo e incapacitado de me aventurar às arrojadas correrias ou alanzoar-me em parrésias heteróclitas a que era propenso.

Caminhei, pois, misantropo e macambúzio, ao lado de meu pai, até à casa de mestre António Algarvio.

 

NAVEGANDO À VELA

De repente, sob ordem de mestre Gregório, o Manuel da Ana levantou-se, aproximou-se do mastro que se mantinha erguido no meio do São Pedro, desamarrou, com extrema facilidade uma série de cordas e estendeu, com a ajuda dos outros marinheiros, um enorme pano esbranquiçado que, num ápice, prendeu e ergueu no mastro rijo e erecto. É que os ventos, agora, sopravam noutra direcção, permitindo ao São Pedro, depois de ultrapassar a ponta do Albarnaz, com o seu imponente farol, seguir em linha recta, na parte setentrional da ilha, bolinar lentamente sobre as águas bravas e onduladas. Meu pai sugeriu:

- Levanta-te, para veres o Corvo.

Lá estava, de facto, ao fundo a pequenina ilha, sobre o verde azulado do oceano, com uma leve e nevoenta fumaça que impedia de se lhe observar a parte mais alta, que fazia lembrar um enorme biscoito, saído do forno, ainda a fumegar.

O porto de Ponta Delgada, no entanto, ainda estava longe. Os balanços do São Pedro, devido à navegação à vela, eram, agora, tão dolentes e acutilantes, que recolhi, mais uma vez, por ordem do meu marítimo paraninfo, ao valhacouto que me havia improvisado. Os efeitos da navegação à vela eram muito mais cruéis e maléficos do que os da navegação a motor e provocaram em mim um mal-estar muito superior ao sentido anteriormente. Deitei-me novamente. Mesmo assim sentia-me muito mal. O barco seguia muito lento, afecto a grandes baloiços e solavancos, que aumentaram sensivelmente a minha inequívoca náusea. É que o São Pedro, ora subia lentamente uma onda, erguendo gigantesca e altivamente a proa sobre a sua crista, ora caía, dorido e sopeado, sobre a enorme cova que a seguir se formava no azulado negro do oceano, num constante e ritmado bater, que se repetia incessantemente. O céu, agora, parecia-me escuro e as imagens do mestre Gregório e dos outros marinheiros assemelhavam-se a sombras enormes, férulas e rúbidas, que se perdiam no ilhéu de Maria Vaz. Ratazanas heteróclitas e gigantescas saíam de todos os lados do ilhéu, de enormes e esconsas grutas, lançando aulidos aterradores, correndo indefinidamente atrás do São Pedro, que voava sobre tapumes esbranquiçados de hortênsias, os quais lentamente se abriam e transformavam em pélagos e precipícios infinitos e transcendentes, onde as ratazanas desapareciam, deixando atrás de si um rasto de gasóleo e fumo negro. O São Pedro tinha asas, galgava o mar a grande velocidade, aproximava-se do Corvo e subia a ilha, sobrevoando as casinhas muito brancas e pequeninas, perdendo-se entre as fumaças do pico de João Moura, que, de repente, se transformava num enorme gigante que chamava por mim, me pegava ao colo e me colocava, com excessivo cuidado, sobre o cais de Ponta Delgada.

 

 

 

O espectáculo que observava agora era majestoso e belo. O São Pedro navegava ronceiro, entre o ilhéu de Maria Vaz e a rocha dos Fanais. As águas estavam calmas e tranquilas. Não havia ondas. Parecia que o mar tinha amansado acintemente, para que eu pudesse erguer-me e saborear tão deslumbrante espectáculo.

- Ali, – apontava o Mulato para a praia dos Fanais – as lapas são como a palma da minha mão! O pior é descer a rocha para as apanhar.

O Manuel da Ana, em ar trocista, olhando de soslaio para mim e piscando o olho a meu pai, aproveitou logo a deixa:

- E aqui, no ilhéu, os ratos são do tamanho de cães.

Eu tremia, agarrado ao braço do meu progenitor, concedendo-lhe o benefício da veracidade, confirmado não só pelo testemunho do Mulato, mas também, por relatos anteriores, que diziam que por aqueles sítios tudo era excêntrico e heteróclito. Por toda a ilha era sabido que o melhor sítio para lapas era a baía dos Fanais. As dificuldades estavam sempre na descida da rocha, por onde eu nunca tinha passado e que agora surgia ali, à minha frente, alta, imponente, silenciosa e misteriosa, apenas cortada pela cascata da ribeira da Francela.

O São Pedro, porém, abstraído de tudo, continuava a navegar. A tarde surgia mais fria, mas muito limpa e luminosa. Por detrás da alta rocha, com as suas ravinas e pináculos, podia ver-se o interior da ilha, onde já se lobrigavam claramente as pastagens dos matos de Ponta Delgada, entremeadas e divididas por bardos e tapumes de hortênsias azuladas e cor-de-rosa, onde pululavam manchas escuras, brancas e fulvas, pastando a erva tenra.

 

 

Eu, porém, já não olhava para os calhaus nem para nada. O São Pedro, agora, navegava entre a Baixa-Rasa e o Ilhéu do Cão. A bonança e a calma de que beneficiava a baía, protegida do vento de sudoeste pelas pontas dos Pargos e do Baixio, deixaram de se fazer sentir. Ondas mais fortes e maiores começavam a obstaculizar a serena navegação do pequeno e frágil batel. Algumas tornavam-se tão altivas e arrogantes que, saltando acima da obra morta do São Pedro, salpicavam, conjuntamente, tripulantes e passageiros.

De repente, comecei a sentir uma vasca terrificante e nauseativa. Parecia estar possuído de vibrações caliginosas, paradigmáticas e angustiantes. O meu corpo, trémulo, inerte, perdera a força e a própria razão de ser e convulsionava-se em frémitos acres e agonizantes. Meu pai, de imediato, entendeu o que se passava. Apoiou-me a cabeça com uma mão e inclinou-me a estibordo. Num ápice, perante o ricto malicioso do Manuel da Ana, entreguei, ali, aos peixinhos, gratuitamente e numa enorme sensação de dor misturada com alívio, o meu parco e frugal almoço, conjuntamente com a alegria e o prazer de fruir tão enlevado périplo.

Quando meu pai me recolheu de tão extenuante suplício, estava lívido, sem forças e verdadeiramente arrependido de me ter envolvido em tão arrojada odisseia. Desejava ardentemente voltar ao cais, donde minutos antes, tão feliz, tinha partido. O safardana do Manuel da Ana, pleno de regozijo, atrevimento e prazer sádico, alheio ao meu sofrimento, sentenciou, na qualidade de emetologista-mor do batel:

- Bravo! Assim é que se aprende! Eu também comecei assim. Calma rapaz! Verás que a próxima vai ser melhor.

O meu sofrimento redobrou porque senti, então, que a maioria da tripulação o apoiava na sua galhofa e estava, decididamente, contra mim. Apenas meu pai, por razões óbvias e evidentes, se mantinha neutro: defender-me era contrariar o movimento maioritário da tripulação liderado pelo biltre do Manuel da Ana. Na sua qualidade de viajante convidado, não podia fazê-lo.

Eu sofria duplamente: a indisposição provocada pelos solavancos do São Pedro e a chacota da marinhagem.

Foi então que, num gesto de grande nobreza, dignidade e comiseração, mestre Gregório, confiando a cana do leme a um dos meus algozes e seu adversário de mofa, se levantou. Balouçando as suas pernas arcadas de velho e experimentado marinheiro, num ímpeto de solidariedade e protecção infantil, pegou nalguns velhos casacos e outras peças de roupa que por ali sobejavam, dobrou-as, enrolou-as e estendeu-as no fundo do barco, à proa, formando uma pequenina e provisória cama. Passou-me carinhosamente, a mão pela cabeça, afagou-me o rosto, encostou-me ao peito e ergueu-me dizendo:

- Deita-te aqui. Vais ver que assim passas melhor e não vomitas mais.

Meu pai agradeceu e eu deitei-me. Não vi mais nada, a não ser, lá ao longe, a sombra negra do Monchique que, contrariamente à sua forma habitual de triângulo isósceles, agora parecia um enorme cesto de vimes, com o fundo virado para cima.

A viagem continuava num mar cada vez mais cavado, hermético e altivo. Porém a sábia experiência de mestre Gregório, fugindo, acintemente, à crista das ondas maiores, proporcionava uma navegação mais tranquila. Deitado no meu provisório mas reconfortante beliche, apenas via o azul esbranquiçado do céu, povoado de cirros brancos, que corriam velozes, ultrapassando o São Pedro, em direcção ao infinito.

Passaram-se alguns momentos que me pareceram horas. A tranquilizante navegação que a sábia e experiente mestria do velho comandante impunha ao São Pedro, a ampla e calma baía dos Fanais por onde agora deslizava suavemente, provocaram em mim uma mudança taumaturga e, levaram meu pai a convencer-me a sair da minha taciturna reclusão. Levantei-me e sentei-me, de novo, no lugar que me fora reservado e que ainda não tinha sido ocupado.

A VIAGEM

Cheguei acima do cais num ápice! Lá estava o São Pedro altivo, com o seu casco branco debruado a vermelho e amarelo, alardeando-se e balouçando-se sobre as águas calmas do Atlântico, preso ao cais, com fortes amarras à proa e à ré.

A companha, porém, ainda ali não estava. O botequim da Dona Augusta era valhacouto certo para escapadelas burlescas e alcoólicas. Chegaria, mais tarde, com meu pai, e era constituída por cinco elementos: Mestre Gregório, sobre quem ombreava toda a responsabilidade de comando e organização do batel, o Jacinto, responsável pelas amarras e apoitas, o Mulato, maquinista-mor, o João do Alto, ajudante e aprendiz e o Manuel da Ana, especialista na arte de içar a vela. Saltando de terra para bordo com extrema desenvoltura, ocuparam, de imediato, os seus lugares na embarcação e reservaram um banco à proa para os dois intrusos viajantes. O Mulato encarregou-se, de em duas braçadas, por o motor em movimento, o qual lançou, de imediato, no ar, um ronco estrépito, misturado com rolos de fumo e um pestilento cheiro a gasóleo.

O São Pedro, depois de solto pelo Jacinto, deu duas guinadas à retaguarda, afastou-se do cais, rodopiou sobre si próprio e pôs-se em marcha lenta, deixando atrás de si uma esteira de espuma acinzentada. A grande baía da Ribeira das Casas estava calma, mansa e tranquila, propícia a um navegar anelante, seráfico, pleno de regozijo e fascínio. Era a minha primeira viagem e, agora, já longe de terra, saboreava-a erotoforamente e achava graça aos suaves e idílicos solavancos a que o São Pedro se entregava sempre que encontrava pela frente uma onda mais afoita e audaz, sob os olhares atrevidos do Manuel da Ana, marinheiro experimentado nos ritos de iniciação à arte de navegar e que velhacamente esperava pela hora de cessar o meu enlevo.

Voltado de costas para a proa, sentado ao lado de meu pai, olhava a Fajã, ao fundo, distanciando-se aos poucos, numa perspectiva que nunca me tinha sido dada observar e que, agora, me permitia imaginar e configurar formas diversificadas e simbólicas. As casas brancas, agrupadas e enleadas, faziam-me lembrar as pérolas de um enorme colar, suspensas entre dois grandes, pétreos e turgescentes peitos: o Pico da Vigia e o Outeiro, ou, então, numa visão mais integradora, a Ponta dos Pargos surgia-me como a proa negra dum grande navio, com o seu convés povoado de casotas e torres, onde se destacavam as da Igreja e da casa do Chileno e lembrava-me dos rigores do Inverno, quando o vento soprava de leste e o velho Carvalho Araújo ancorava mesmo ali, totalmente impedido de o fazer em qualquer outro ponto da ilha, devido ao mau tempo. De seguida, olhava para leste, tentando descortinar o interior da ilha, e via o grande obstáculo que era a rocha das Covas, agora mais alta e proeminente do que nunca. A água, nas cascatas das ribeiras do Cão e das Casas, desprendia-se em fluxos ritmados e flavescentes, sob o verde dos socalcos e andurriais e o negro das fragas, ravinas e penhascos. Lá estava o famigerado e precito pináculo das Covas, onde dias antes, por momentos, meu pai e eu, quase hipotecáramos a própria esperança de viver. Puxei-lhe, avidamente o braço calejado e disse:

- Foi ali, pai! Foi ali! Lembra-se?

Meu pai teve que, pacientemente, explicar ao Manuel da Ana que, andando por ali – e apontava para a rocha das Covas – alguns dias atrás, comigo, a apanhar erva-santa, de repente, começaram a cair pedras, calhaus enormes e que tínhamos apanhado um grande susto. Víramos a morte pintada! Não fossem os gritos do Constantino, que de cá de baixo lhe indicava para fugir para junto da rocha e hoje não estaríamos ali.

- Tiveste sorte rapaz! Olha se apanhavas com aqueles marmelos! – Dizia o Manuel da Ana, apontando para umas pedras enormes e mais proeminentes a meio da rocha.

 

PREPARAÇÃO DA VIAGEM

Cheguei a casa! Um frenesim diabólico liderado por meu pai: ia ainda hoje a Ponta Delgada e eu tinha que o acompanhar.

Como? Não me disse. Para quê? Respondeu-me sumariamente com um argumento reflexivo do respeito que sempre impunha a si próprio, espelho das suas atitudes leais e honestas e do seu comportamento garboso:

- Mestre António Algarvio chegou da Terceira, onde foi operado. Há três anos, quando me aconteceu o mesmo, ele veio cá, de propósito, para me visitar. Por isso, agora, tenho que o ir ver. Tu vais comigo.

Entrei num misto de excitação e enleio.

Ao lado, minha irmã, agora afeita também ao papel de mãe, apresentava argumentos contrários de peso: a distância, o avançado do dia, não ser altura boa, eu ainda ser muito pequeno…

Meu pai contra-argumentava linearmente, apenas com o sentimento de gratidão e o reconhecimento que todos devemos ter, repetindo incessantemente: «Ele também veio cá.»

Afinal, bem vistas as coisas, a tarefa estava bastante facilitada: «Para lá íamos no São Pedro; de regresso vínhamos com Deus…»

Enfiei rapidamente umas calças curtas, castanhas, presas ao peito com suspensórios de plástico, uma camisa de seda cor-de-rosa, calcei uns sapatos, também castanhos, acintemente cortados à faca na parte superior, para que os meus rechonchudos e nédios pezinhos, habituados às agruras dos descampados, lá entrassem mais facilmente. Peguei numa “froca” de angrim, também oferta dos meus generosos parentes americanos, e larguei em forte correria pela Assomada, Rua Direita e Via d’Água, fazendo, no entanto, um desvio curvilíneo  pela Fontinha.

Minha avó, à janela da sala, de camândulas em punho, ao ser avisada de tão inesperado e inóspito périplo, benzia-se e persignava-se ao mesmo tempo que proferia exclamações alucinantes acompanhados de invocações iconolatras a Santa Rita, a santa que, indiscutivelmente, ocupava o primeiro lugar no top da sua heteróclita e pouco canónica hagiografia.

Eu, nem a ouvia. Antes me esgueirava cauteloso e apressado, não fossem tais impropérios causar alguma influência no espírito do meu progenitor e o demovessem da nossa arrojada mas gratifica viagem.

 

 

O Sol já descia amarelado e pardacento sobre os lúgubres casebres da freguesia. A ilha estendia-se calma e serena sobre o oceano azulado, consciente da sua ânsia de infinito. O mar horripilava a esperança e desafiava o destino mas prometia uma bonança limitada. O vento, vestindo de púrpura, soprava levemente de sudoeste. O verão, embora timidamente, como que anunciava o princípio do seu fim, e os campos cobriam-se de um verde cada vez mais amarelado e fulvo, ansiosos de proclamarem o almejado amadurecimento dos milhos semeados nas belgas mais soalheiras e nos campos mais férteis.

Eu descia o aclive do Covão, de aguilhada em riste, imaginando tanger a Moirata e o Damasco, jungidos garbosamente, puxando um pesado carro de incensos. Do eixo apertado rolando entre cocões fumegantes, saltava um rangido alucinante que ecoava altíssono nas encostas sobranceiras do Pico da Vigia. De vez em quando parava e punha-me de cócoras, ora para apertar, ora para alargar, os parafusos dos cocões. As reses, impacientes e desabridas, porém, não contemporizavam com os meus excessivos e curiais cuidados para com o famigerado obstáculo do seu descanso. De vez em quando soltavam-se e, punham-se em extravagante correria, virando o carro e os incensos e desapareciam, enquanto a minha fictícia e simulada tarefa era substituída por estroinices reais e aberrantes, não para os meus princípios de menino de sete anos, mas para os proprietários dos currais, belgas e courelas onde, debaixo dos meus pés, rolavam maroiços e ruíam paredes, sobre as quais acintemente saltava, para encurtar distâncias.

Por toda a aldeia já corria a fama de que pedras atiradas para os campos ou paredes e maroiços deitados abaixo, no caminho do Outeiro Grande, eram obra minha. Sim senhor! Pudera! Passava lá todos os dias!…

Fora uma espécie de contrato amistoso que meu pai celebrara, sem me consultar, com o barbeiro da freguesia e que me condenava a ir levar-lhe e buscar, todos os dias, ao Outeiro Grande, a Trigueira com cria serôdia, tendo, como obrigação da parte dele, tosquiadura grátis a todos os elementos do agregado familiar. E não eram poucos! O contrato, porém, ainda continha mais uma cláusula, que nos era extremamente favorável: como o homem acumulava as funções de latoeiro com as de barbeiro, lata que furasse lá em casa tinha pingo de solda rápido, eficiente e gratuito.

Quanto às paredes e maroiços, meu pai, perante o persistente e contínuo chorrilho de queixas que lhe chegavam aos ouvidos, já me avisara várias vezes. Que as levantasse ele. Aliás, quantas mais queixas ou ameaças surgissem, mais paredes e marouços apareceriam derrubados nos dias seguintes.

Pedradas às ovelhas do Delfim era tarefa certa e quotidiana. Podia eu passar ali todos os dias, agarrado ao rabo da Trigueira, não encontrar ninguém sentado nos degraus que dão para a Pedra d’Água e abster-me de atirar umas valentes pedradas às ovelhas daquele biltre? Claro que as pedradas eram para o bigorrilha, mas os pobres ovinos, que já fugiam só de ouvir, ao longe, o som reconhecível da campainha da Trigueira, é que eram as vítimas. Apenas em duas situações eram perdoados: quando alguma badana procriava ou, quando a viagem era mais tardia, já luz-que-fusco, e eu, então, corria, cheio de medo, ao passar, mais abaixo, junto ao Calhau das Feiticeiras. Dizia-se que estas apareciam por ali, precisamente ao anoitecer. E a verdade é que no velho e monstruoso tufo estavam gravadas as marcas aberrantes e inconfundíveis dos seus pés.

 

MÃE CORAGEM

Meu avô era um pequeno médio lavrador. Tinha duas vacas leiteiras, um junta de gueixos para a canga, algumas terras de milho, outras tantas de mato e várias relvas. No Mato tinha a relva do Queiroal, onde, no Verão, soltava o gado alfeiro e, ali logo no cimo da Rocha, a terra do Bracéu. Bem precisava ele, pois, de braços fortes para o ajudar nas lides dos campos, nas tarefas agrícolas e no arranjo e trato do gado. Os primeiros rebentos nasceram meninas e os rapazes, na sua maioria, vieram mais tarde. Umas e outros, no entanto, iam-se escapulindo e zarpando para a América, para o convento e até, no caso dos rapazes, para a tropa. Para o ajudar no trabalho agrícola, ficou uma das primeiras filhas, Angelina de seu nome, que, mais tarde, foi minha mãe. Angelina nascera forte, robusta e saudável e logo se tornou jovem moçoila, valente, trabalhadeira e afoita. Depressa se havia de lhe traçar o destino. Assentava-lhe tão bem o trabalho árduo e duro dos campos, a ele se adaptando com mestria e dedicação. Enquanto o Sol lhe ia tornando trigueiro o rosto e o cabo da enxada lhe calejava as mãos, lá ia ela, dia após dia, à chuva, ao vento e às tempestades, pés descalços, foice ao ombro, rodilha à cabeça, aguilhada na mão, calcorreando atalhos e veredas, saltando grotas e tapumes, perfurando madrugadas cinzentas e nevoeiros obnubilados. Tanto sachava milho na Bandeja como ceifava erva na Figueira, tão facilmente carregava à cabeça cestos de batatas e de inhames, como se agarrava-se à rabiça do arado abrindo sulcos profundos, revirando e desfazendo as leivas enrijecidas, tão bem sachava, mondava e quebrava espiga, como rachava lenha e a empilhava ordenadamente debaixo do lar da cozinha. Subia a Rocha sem lhe contar as voltas e, ainda noite escura, e no regresso da ceifa da Alagoinha vergava-se sob os pesados molhos de lenha do Cabeço da Rocha. Soltava os bois da manjedoura e atrelava-lhes o corsão ou o arado, ordenhava as vacas, tirava-lhes o estrume e levava-as ao pasto. Desempenhava todas tarefas agrícolas com perfeição, sabedoria e nobreza, carregando, sem queixumes, sobre a rodilha ou sobre os ombros, o peso inequívoco dos produtos das colheitas agrícolas.

Trabalho digno, honrado, humilde, verdadeiro e empenhado o seu.

Conta-se que certa tarde foi com meu avô às batatas-doces para o cerrado das Furnas. Cortaram a rama, cavaram a terra, sacudiram as batatas e limparam-nas de forma a encher um grande cesto, que a família era muita. Voltaram: ele atrás com o molho da rama; ela à frente, descalça, formosa e segura, de tez morena e bochechas bem avermelhadas, a respingar suores e a arfar cansaço, com um enorme e pesadíssimo cesto à cabeça, bem acaculado e a abarrotar de batatas-doces. Subiu a rua Nova, atravessou as Courelas, entrou na rua Direita e aproximou-se da Praça, onde muitos homens ali se tinham sentado, passando a tarde inteira a descansar, a falquejar, a tagarelar, a comentar, a gozar e, pior ainda, a injuriar, a difamar e a meterem-se na vida alheia.

Ao vê-la com tal carrego à cabeça, logo se insurgiram com ditos e palavras que punham em causa a veracidade do que trazia no cesto. Que era bazófia! Que não podia com um gato pendurado pelo rabo, muito menos um cesto tão cheio de batatas-doces.

As insinuações transformaram-se em desconfiança e estaem descrédito. Queaquilo não era tudo batatas. Que para mostrar que era forte, de certo enchera o cesto, por baixo, com a rama leve e apenas lhe colocara duas dúzias de batatas no cimo, para disfarçar. Aldrabona! Trapaceira! Mentirosa! Bem enganava as mulheres, mas a eles, homens rijos e valentes, discretos e trabalhadores, é que não!

Angelina, indignada com tamanha injustiça e tão desmesurada aleivosia, não se conteve, nem esteve com meias medidas e vai disto: aproximou-se dos sacripantas e, perante o espanto e espasmo de todos, chapou-lhes com o cesto das batatas mesmo ali, no meio da Praça, em frente às ventas de tão injustos difamadores.

Ah! Grande mãe! Que coragem!

 

ESTRANHA DECISÃO

Desde há muito que o Libório não se conformava com a sua sorte. Viver ali, naquela terra pobre e sem futuro, agarrado à rabiça do arado, de enxada em punho, ou a acarretar molhos e cestos às costas, não era para ele. Por isso é que não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia de mudar de vida. Esse dia não tardou.

Na feira de um de Março, a que deslocara para vender dois bácoros, encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa dacolá e o sonho de abandonar a vida agrícola, para o Libório, tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerra em Angola. Dizia-se que também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade. Como se encontrava nessa situação, temia que o azar lhe batesse à porta e ainda fosse bater com os costados em Angola. Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que o contactou através de um primo de Senande, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Senande, em casa do primo, que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de carro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O Libório regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte mil em notas e quarenta em bens. Aceitamos casas, terras… Mas temos que ser nós a avaliar os bens – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Ao chegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, vai arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar o restante. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mulher, ocultou a decisão às crianças, mas teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – Perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Senande. E não te esqueças que aos pequenos e a quem te preguntar para onde vais, deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi já está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

O ABALO

Em toda a escola não se falava noutra coisa. Um sismo de grau seis na escala de Richter, embora com epicentro no alto mar, a uma razoável distância da costa portuguesa, varrera todo o Norte do país, com maior incidência nas regiões do Minho e Douro Litoral.

Na sala de professores, onde se comentava o catastrófico acontecimento com maior proficiência e sabedoria, não havia um único professor que o não tivesse sentido. Uns tinham apanhado um grande susto, outros não tinham sequer pregado olho toda a noite e alguns afirmavam a pé juntos que tinham saído para a rua e só ao romper do dia haviam regressado a casa. Nos pátios e corredores funcionárias e contínuas, por entre laivos de embaraço e de pânico, afiançavam com acentuados exageros que tinha parecido o fim do mundo e que só por milagre divino ou por graça de algum santo da sua predilecção é que prédios, casas, muros e paredes não haviam desabado sobre nós.

 De facto, na escola, todos eram unânimes em considerar que fora uma noite de medo, de angústia e de sofrimento a que ninguém ficara alheio. Enfim uma catástrofe que, embora não tivesse provocado, ao que se soubesse, prejuízos materiais ou humanos, deixaria marcas indeléveis, por muito tempo, na memória de todos.

A verdade é que eu também sentira um medo enorme. Mas, aproveitando o meu estatuto de único açoriano existente na escola, cuidei que esta seria uma rica oportunidade de ocultar o meu temor, revelando assim uma força superior que afinal não possuía. Por isso, com um misto de desusada bazófia, comecei a armar-me em perito fictício em sismologia, garantindo com algum exagero que aquilo não tinha sido nada comparado com as crises sísmicas tão frequentes e tão dramáticas nas ilhas açorianas e que eu, noutros tempos, vivera tão de perto. É verdade que, durante a minha infância, a ilha das Flores me poupara a tais catástrofes. Não havia registo escrito ou memória de um abalo sísmico na ilha, o que na realidade era confirmado pelo postulado científico de que as estruturas arquitectónicas das Flores e do Corvo estão situadas na placa do continente americano, devido a uma fenda que as separou das outras sete, há milhões de anos, provavelmente no decurso de uma crise sísmica submarina muito violenta. No entanto, mais tarde, e já em plena juventude, a eles bem me habituara, quer durante a minha permanência em Angra quer mais tarde na ilha do Pico. Mas no fundo bem compreendia a agitação geral provocada pelo sismo da noite anterior a que ninguém escapara e o medo que todos, mas mesmo todos, tinham sentido e a que eu próprio não fora alheio, pese embora o tentasse disfarçar.

Após o toque para a aula das dez, ao atravessar os recreios, verifiquei que a agitação que tal calamidade provocara nos adultos também se estendera às crianças, pese embora a sua média de idades rondasse os dez ou onze anos. Percebia-se perfeitamente nas suas palavras, nas suas atitudes e nas suas brincadeiras uma desusada e como que sinistra tribulação. Por isso, ao entrar na sala e, antes de iniciar a aula, fui forçado, como fazia sempre que ocorria algum acontecimento extraordinário, a dedicar um bom par de minutos, a ouvir e a conversar com os alunos, até porque, neste caso, senti que seria necessário e imperioso, por um lado, desanuviar-lhes algumas inquietações e tumultos e, por outro, transmitir-lhes alguma calma e tranquilidade. Que não tivessem medo. Que tinha sido um abalo pequeno. Que o norte de Portugal era uma zona do globo terrestre onde raramente se verificam abalos de terra e que os que aconteciam eram geralmente de fraca intensidade e sem grandes prejuízos materiais ou humanos. Depois tentei, a muito custo, indicar-lhes alguns procedimentos a ter na ocasião em que eventualmente acontecesse um outro sismo. Impossível transmitir-lhes o que quer que fosse! É que todos queriam falar e contar o que tinham sentido e vivido durante aquele trágico momento da noite anterior. Por isso a todos dei a oportunidade de o fazer, obrigando-me assim a abdicar do plano que havia tão meticulosamente elaborado para aquela aula de expressão escrita, transformando-a, de forma improvisada, numa aula de oralidade.

Uns mais outros menos, todos contaram algo do que tinham sentido e vivido e que os havia preocupado na noite anterior e que ainda os preocupava. Todos… excepto o António – um matulão de mais de catorze anos, que habitualmente se sentava sozinho, ao fundo da sala, sempre distraído mas sempre calado, sempre a leste de tudo o que ali se passava e mais sabido nas lides da vida quotidiana do que nas letras e nas ciências. Como não se manifestasse interroguei-o com a denodada intenção de poder apreciar e até eventualmente corrigir a sua expressão oral, item pelo qual também o havia de avaliar no final do período:

- Então, António? Não sentiste o abalo de terra, esta noite?

Resposta pronta do molengão:

- Eu?!… Eu, setor?… Eu acordei e ouvi a minha casa toda a tremer, mas pensei que era o meu pai e a minha mãe que, esta noite, estavam mais entusiasmados com “aquilo”.

A Câmara Municipal da Madalena do Pico, através do Pelouro do Ambiente, organizou e realizou um conjunto de trilhos e rotas culturais, pelo concelho, com o objectivo não apenas divulgar o património cultural e histórico da região, mas também de perseverar e defender o ambiente. No passado sábado teve lugar o segundo de um conjunto de três, que incluía um trajecto, por caminhos e veredas antigas, com partida da Barca até à Formosinha, passando pela Quinta das Rosas.

Com grande adesão de participantes e uma excelente organização, o trajecto iniciou-se precisamente na zona balnear da Barca, local onde, outrora se terão fixado os frades franciscanos que aqui introduziram a e desenvolveram a cultura da vinha. Segundo uma antiga lenda, ao pretenderem expandir o seu domínio territorial, essa pretensão foi-lhes negada pelos donos e senhores da ilha. Insatisfeitos, resolveram os frades pedir apenas uma nesga de terreno tão pequena que a pele de um boi a “abarcasse”. Concedido este pedido, os frades escolheram o maior boi que existia na região e, depois de o matar, cortaram-lhe a pele em tirinhas muito finas com as quais fizeram um enorme cordão, “abarcando” com ele um grane espaço de terreno, aquele que passou a chamar-se “Abarca” e que hoje, impropriamente se denomina de “Barca”.

O percurso seguiu pela Canada do Serralheiro, atravessando toda a zona dos Toledos, topónimo que também tem na sua origem na presença de frades espanhóis nesta região, até aos “Santinhos”, um pequeno nicho de construção recente, em memória dos santos populares. Depois seguiu na direcção da montanha, hoje muito limpa e imponente, até à Quinta das Rosas, atravessando antigos caminhos recortados por estradas, canadas de ontem pejadas de arvoredos, descansadouros antigos agastados pelo tempo, ladeando antigos campos de milho hoje transformados em pastagens, contornando vinhas de outrora, actualmente metamorfoseadas em densas matas de incenso e faia.

A Quinta das Rosas, hoje a passar por inúmeras vicissitudes burocráticas com graves repercussões no seu funcionamento, estando actualmente fechada, foi outrora santuário de natureza viva variada, barranco de passeios e lazer, algar de festas e encontros, apresentando um elevado valor botânico conjugado com uma beleza natural rara.

De seguida iniciou-se a descida em direcção à Formosinha, pelo Cabeço do Limoeiro, Cabeço Chão, paralelos ao Caminho das Almas, vindo desembocar junto à Ermida da Estrela, zona outrora erma, mas hoje já recheada de novas e modernas habitações. A Ermida da Estrela é um verdadeiro paradigma duma acentuada e desmedida falta de gosto, de sentido histórico, cultural e artístico. Outrora um templo enigmático, quase mítico, porquanto a sua construção data dos primórdios do povoamento da ilha. No entanto, devido às crises sísmicas, frequentes no Pico, e ao desleixo de quantos por ela foram responsáveis foi caindo e foi-se levantando, através dos séculos, umas vezes virada para a montanha outras para o mar, até que em 2010 foi reedificada na sua forma actual, em blocos de cimento, caiada de branco, com portadas de madeira e vidros, sendo-lhe encastoada em cima uma cruz e dois pináculos laterais que terão pertencido à ermida primitiva. Desde os tempos em que o padre Fortuna foi pároco da Madalena, nunca mais a ermida se abriu ao público, pese embora desfrute de uma espectacular vista panorâmica sobre uma boa parte da da ilha, do mar, da montanha e do Faial.

Finalmente já quase no termo do percurso, perto do porto da Formosinha, por onde outrora se escoavam as pipas de vinho que a ilha produzia, a Casa Conventual dos Jesuitas, com residência fixa no Faial, mas que aqui vinham no Verão e onde se fixavam para desenvolver o cultivo da vinha e a produção do vinho. O edifício outrora majestoso e imponente, hoje jaz desfeito, abandonado, envergonhando os obreiros da defesa do património cultural e histórico.

O ILHÉU DO CONSTANTINO

O sargaço, ali, no Ilhéu do Constantino, era bem mais negro, avermelhado e abundante do que em todas as outras zonas do Rolo, desde o Pesqueiro de Terra até à foz da Ribeira das Casas. Por isso, nos dias em que as fertilizantes, fertilizadoras e tão desejadas algas, arrancadas das profundezas do oceano pela brabeza das águas e trazidas, até à costa, pelo vaivém altivo e envolvente das ondas e pelo deslumbramento ousado e ritmado das marés, vinham emaranhar-se nos pedregulhos arredondados do rolo, os primeiros que demandavam aquelas paragens, a fim de recolher o precioso estrume – uma espécie de dádiva divina para os campos – bem lutavam, bem se esforçavam, bem aceleravam, bem corriam e bem se esganavam para chegar cedo e em primeiro lugar àquele recanto, assentando arraiais no melhor e mais fértil local de extracção de sargaço: frente a um pequeno ilhéu que ali existia, denominado de “Ilhéu do Constantino”. Ali o sargaço, afluindo em maiores fluxos, como que se amontoava, armazenava e excedia, facilitando a tarefa de quantos pretendiam retirar do mar aquele adubo para o milho semeado nos seus serrados, para as couves plantadas nos seus campos e para a batata-doce cultivada nas belgas mais soalheiras.

O Ilhéu do Constantino, uma espécie de talismã sargaceiro, era um enorme calhau, fixado no fundo do mar, a emergir com uma graciosidade intrigante na quase personificação de uma grande massa basáltica, erecta e projectada para fora da superfície da água, abrigada dos ventos e a enlevar-se com a suave e meiga erosão das ondas. Situava-se a uns bons metros de terra, sendo que do lado do Rolo, em hora de maré seca, era possível atingi-lo e saltar-lhe para cima, a pé. Com a maré cheia, porém e do lado do Pesqueiro de Terra, mesmo com a maré seca, era impossível demandá-lo, a não ser a nado.

Era a esta posição estratégica de uma espécie de calhau mítico, encafuado quase na esquina do Pesqueiro de Terra com o Rolo que o tornava fértil em sargaço. Este, trazido pelo “salseilhar” constante das ondas e pelo rodopiar permanentemente das águas, era como que empurrado para aquele recanto, prendendo-se, encafuando-se e arrecadando-se ali, como se ficasse preso por uma rede enorme ou fosse capturado por um camaroeiro gigante. Por isso mesmo, era fácil e rentável retirá-lo dali, tornando, assim, por quantos demandavam o Rolo em dias de saída de sargaço, aquele lugar o mais desejado e apetitoso de toda a faixa costeiro onde se podia extrair o sargaço.

O Ilhéu do Constantino ainda tinha uma outra vantagem, embora menor e menos explorada. Integrado na orla do baixio, desde o Rolo até às ruínas do presumível Forte do Estaleiro, já quase no Varadouro, era um excelente pesqueiro, ou seja, um bom lugar para pesca, sobretudo de moreias, polvos, sargos, vejas e castanhetas.

Naturalmente que a origem onomástica do Ilhéu do Constantino se prendia com um tal Constantino que nem a história nem ninguém sabia quem é. Perde-se pois no tempo o Constantino, quer fosse um experiente e assíduo pescador daquelas paragens, quer alguém que apenas demandasse, de vez em quando, aqueles baixios e escombros para apanha de lapas ou extracção de sargaço e ali se estatelasse, talvez mesmo falecendo naquele sítio.

Por todas estas razões o Ilhéu do Costantino poderia muito bem ser considerado uma espécie de “ex-libris”, se não da Fajã Grande, pelo menos da enorme baía que ia da Ponta dos Pargos até à Rocha da Ponta.

RITINHA

No início de um novo ano lectivo, caldeada com matulões de ar vadio e entrelaçada entre moçoilas empavesadas, entrou-me pela sala dentro uma pequerrucha, que a muito custo se ia libertando de atropelos e repelões mas que ultrapassava com denodo e subtileza os obstáculos babélicos, subjacentes à primeiro entrada em tão desconhecida destinação.

A Ritinha – assim chamavam à sirigaita – era na realidade tão pequena que, quando sentada, acima do tampo da carteira se lhe divisava apenas o rosto azevieiro, apoiado em ambas as faces por umas mãozitas, dispostas em forma de concha, muito branquinhas e maneiras, enquanto as pernas balouçavam exageradamente em frustradas e improfícuas tentativas de chegar ao chão.

Mas não era apenas o tamanho que a diferenciava dos restantes. Cedo me apercebi que em perspicácia e inteligência era das maiores. Rosto esbranquiçado e franzino, cabelo muito negro e ondulado, com duas madeixas a destaparem uns olhitos muito escuros, muito atentos e afeitos, consubstanciava a um interesse e atenção permanentes uma gigantesca capacidade de aprender e uma desmesurada apetência de estudar.

Talvez porque sentisse que sendo a mais pequena necessitaria de maior protecção, talvez pelo seu ar angélico e doce, talvez pela ternura que transparecia do seu olhar e da firmeza que trazia nas suas atitudes, talvez por isto e por aquilo, afeiçoei-me excessivamente a ela, gerando-se entre nós uma amizade recíproca, uma consideração mútua e uma estima emparelhada. A garota perdia-se e achava-se por estar a meu lado e conversar comigo. Tal enlevo provocou-lhe o hábito de todos os dias, terminada a aula, enquanto preenchia o sumário, assinava o ponto ou arrumava a pasta, vir ela, ansiosa e expectante, postar-se junto à minha secretária, em bicos de pés e, com um misto de vergonha e à vontade, extravasar:

- Professor, hoje tenho uma coisa para lhe dizer – e todos os dias trazia algo de novo, de diferente, sob a forma de notícia, que necessariamente partilhava comigo. Desde o gato que lhe tinha arranhado a cara até ao Satisfaz Plenamente que tirara em Inglês, passando pelo filho da vizinha que fora tomar uma vacina e gritara imenso ou por um rapaz do 6º I que lhe deitara a língua de fora. Tudo, mas mesmo tudo, me caía em catadupa sobre a mesa.

Ouvia-a com atenção, carinho e enlevo, pese embora muitas vezes me atrasasse excessivamente. E não é que me habituei de tal modo à bisbilhotice da pequerrucha que por nada deste mundo trocava tão denodado contubérnio!

Certo dia a Ritinha aproximou-se mais tímida e hesitante do que nunca. De imediato cuidei que algo de estranho a tivesse contrariado. Mas não. A novidade lá estava e saiu jactante e convicta:

- Professor, hoje tenho para lhe dizer…  que nada tenho para lhe dizer.

A freguesia de São João do Pico explodiu cultural e desportivamente, através dum vaivém intenso, variado, pleno de vivências, encharcado de actividades e iniciativas, acorrentado à história e às tradições, galvanizado de empenhamento e dedicação, uma espécie de “vulcão de cultura e de desporto” donde emergiu uma lava agregadora, atraente e construtiva, unindo a memória do passado às vivências do presente, fortalecendo o sentido de união e o espírito colectivo, solidificando a identidade e a idiossincrasia da sua população.

Na realidade e integrando o Projecto “Freguesias CoMvida”, organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Lajes do Pico, a freguesia de São João, como o já haviam feito a Ribeirinha, a Piedade e a Calheta, embora de forma diferente mas com actividades semelhantes, organizou entre os dias 21 e 28 de Abril, uma Semana Cultural e Desportiva, durante a qual se realizaram diversíssimas actividades. A Semana, agora realizada, caracterizou-se por um forte empenho dos seus organizadores e uma desmesurada afluência de participantes e constituiu um marco importante no desenvolvimento cultural e na prática desportiva não apenas da população da freguesia mas também dos forasteiros que, por estes dias, demandaram São João.

 Desta erupção de vivências culturais e de realizações desportivas, em que a semana foi fértil, emergiu, na manhã do dia 28, a realização de um trilho pedestre, por veredas e atalhos de outrora, com epicentro no Pico da Urze e que se estendeu, numa torrente de alegria, satisfação, camaradagem e confraternização, pelas encostas da montanha, quase até ao mar. Transportados até ao Pico da Urze em viaturas particulares, os cerca de cinquenta participantes no “Trilho dos Pastores de São João” iniciaram uma caminhada desde aquele monte até aos subúrbios de São João, não apenas descendo o vetusto e histórico “Caminho da Serra” mas também atravessando pastagens pejadas de gado bovino e percorrendo campos outrora a abarrotar de inhames, de frutos e de lenha. O “Caminho da Serra”, hoje um percurso abstracto, emerso em sombras e memórias, constituiu, no entanto, em tempos idos, a principal via pedestre a ligar o mar à serra, percorrida por quantos retiravam daqueles campos o seu sustento quotidiano ou, naquelas paragens, apascentavam os seus gados. Além disso, o “Caminho da Serra” também ligava aquela freguesia picoense às povoações do norte da ilha, nomeadamente, à vetusta vila de São Roque, nas demandas em Tribunal, para ir ao médico ou simplesmente consular um advogado. Era também a vereda que permitia o aceso às relvas para a ordenha, para tratar do gado alfeiro e que conduzia, diariamente, a população nas suas idas e vindas àqueles recantos serranos, para cortar lenha, apanhar inhames e sobretudo para acarretar o leite.

Orientado sob a sábia experiência do senhor Rui, profundo conhecedor daqueles párramos e andurriais desde criança, o grupo participante desfrutou de um interessantíssimo percurso pedestre que, embora cerceado, aqui ou além, por algumas dificuldades inerentes não apenas à natureza agreste e abrupta do terreno mas também provenientes do seu abandono actual, lhes proporcionou uma verdadeira caminhada de deslumbramento, de fascínio, de encanto e de magia, adocicado pela frescura do ar, pelo perfume dos campos, pelo sabor do poejo e da nêveda.

Nas encostas meridionais do Pico da Urze, a enorme e ampla Fajã, pejada de endémicas, onde sobressaem, para além do cedro, da urze e da queiró, o sanguinho, o tamujo, o rosmaninho, o pau branco, o folhado e o lendro, num chão atapetado do musgos, fetos, intercalados com árvores seculares com o tronco caiado de musgo, pejado de parasitas, com destaque para a “doiradinha”, a reivindicar para si o estatuto de um habitat em clausura, “sem ver o mar e sem ver a montanha do Pico” e que, outrora, se transformava em chá milagroso que curou os nossos antepassados dos mais variados achaques, das mais vis maleitas e dos mais atrozes sezões.

Depois da floresta endémica, as pastagens da Vereda do Giga a abarrotarem de erva verde, fresca e tenrinha, misturada com trevo, poejo, nêveda e mandastro, que fazem a delícia dos bovinos e enchem o ar de um perfume perturbante, adocicado, tranquilizante e enternecedor.

Finalmente o Outeiro do Cação, já mais cá para baixo, a fazer-nos regressar, novamente à floresta, onde agora o incenso, de braço dado com a faia e o loureiro, tem o seu império, com árvores seculares, de porte altíssimo, copas avassaladoras, transformando o “Caminho da Serra” num manancial de frescura, numa abóboda de murmúrios, numa torrente de imponência tranquilizante mas dominadora. Depois, o caminho segue ainda, ingreme e abrupto, atravessando a Falquejadura, pejado de furnas minúsculas onde se “acaçapavam” os homens para se abrigarem das intempéries e da chuva, de descansadouros, de marcos históricos, de cruzes a assinalar mortes e das ruínas da histórica Casinha da Laje, uma espécie de hall de entrada na serra e que servia de abrigo a quantos, em dias de chuva demandavam aqueles descampados.

Não ficaria completa, esta crónica, se não informasse os leitores, que o grupo, atravessando, agora sim, as modernas e alcatroadas ruas de São João, continuou, é verdade que já um pouco desfeito e sem recurso ao guia, a caminhar, como se do “Caminho da Serra” se tratasse, indo desembocar, ali mesmo, no restaurante “Tacão”, com janela debruçada para o mar e onde os caminhantes que assim o entenderam, puderam saborear um excelente almoço e desfrutar de um agradável e inesquecível convívio.

A NAMORADA FEITICEIRA

Conta-se que há muitos anos, na Fajã Grande, na ilha das Flores, havia um rapaz que namorava com uma rapariga órfã de pai e que vivia só com a mãe. Ele, todos os dias, depois de acabar o trabalho, lavava-se, mudava-se de roupa, ceava e ia fazer serão para casa da namorada. Falavam de tudo, do que ia ser a sua vida, de como seria a sua casa e outras vezes contavam histórias. Um dia, começaram a falar de feiticeiras. O rapaz ria e brincava:

 — Feiticeiras!? Agora cá… Não acredito. Quem me dera ver uma!

 — Não digas que não há feiticeiras, olha que te enganas! — Insistia a rapariga.

 — Sim, sim… tu é que és a minha feiticeira! — Acrescentava o rapaz para não discutirem.

 No entretanto o tempo ia passando. Chegada a hora, o rapaz despediu-se e saiu. A noite, porém, estava muito escura. Quando já tinha andado um bocado de caminho e estava quase a chegar a casa, duas cabras saíram dum pátio e deram um salto para a frente dele.

 — Ó diabo, pois eu fui, esta tarde, deitar-vos na rocha, vocês até agora nunca saíram de lá e como é que estão aqui?! — Disse o rapaz, julgando, com o escuro, que aquelas eram as suas duas cabrinhas.

 Tentou apanhá-las para as amarrar, mas não conseguiu. Os animais, que eram habitualmente mansos, davam um salto e ficavam adiante e ele não conseguia pôr-lhes a mão. Já estava a ficar aborrecido e, como estava ao pé do portão de casa, pegou num fueiro que era do corsão e estava ali ao pé da parede. Atirou uma paulada numa das cabras, fincou-lhe a ponta do fueiro na pele, fez-lhe sangue e logo ela, misteriosamente, se transformou na sua namorada. O rapaz não podia acreditar no que via e disse:

 — Oh! Vai-te com o diabo!… E olha que é verdade que há mesmo feiticeiras. E logo quem… Vai-te embora que não quero mais saber de ti!

 — Não, não é assim, tu tens que me ir pôr em casa! — Respondeu a rapariga.

 O rapaz teimou que não ia, que o que queria era vê-la longe, que nunca mais punha os pés em casa dela. Mas, por fim, não teve remédio senão concordar, aceitando ir levá-la a casa. Ela então disse-lhe:

 — Vira-te para trás!

 Ele virou-se e ficou logo à porta da casa da rapariga. Voltou para sua casa e todo o caminho veio maldizendo a sua sorte e o que lhe tinha acontecido. Nunca mais quis saber de tal mulher, mas ela perseguia-o sempre, durante toda a vida.

A CANADA DA FONTECIMA

De todas as canadas da Fajã Grande, e não eram poucas, a única que tinha o piso igual ao dos caminhos, isto é, do tipo calçada romana, era a Canada da Fontecima. Situada no lugar com o mesmo nome, que atravessava de Norte a Sul, a Canada da Fontecima ligava o Alagoeiro ao Batel, num trajecto curto, apertado, de bom piso, de fácil e agradável trajecto e, sobretudo, bem mais rápido do que o do caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros. É que este caminho que também ligava o Alagoeiro ao Batel e através do qual se tinha acesso a todos os outros lugares do Sul e Leste da Fajã, incluindo a Rocha, no seu normal trajecto, ia dar uma grande volta pela Ribeira, passando junto ao Arame, o que significava um percurso bastante mais longo, obrigando, consequentemente, os transeuntes a uma demora excessiva relativamente ao trajecto da Canada da Fontecima. Em suma, para quem queria seguir para o Batel e para as outras localidades do Sul, até aos Lavadouros, se fosse pela Canada da Fontecima realizava um trajecto bem mais curto e mais rápido. Era pois, objectivo prioritário desta canada, não apenas dar acesso às propriedades que a ladeavam e a outras circundantes, mas também e sobretudo ligar de uma forma mais rápida e eficaz, sobretudo para quem carregava molhos ou cestos às costas, o Batel com o Alagoeiro e vice-versa. Encurtavam-se distâncias, reduzia-se o trajecto, poupavam-se energias e aliviavam-se as costas de quem vinha carregado com molhos ou cestos.

No entanto, o facto de ser uma canada e, consequentemente, uma via de circulação muito estreita, a Canada da Fontecima não permitia a circulação de gado, nem muito menos dos carros ou corsões. É que de tão estreita e apertada que era, não tinha a largura necessária para que circulassem duas rezes, ao lado uma da outra. Como, por vezes, havia gado a caminhar para baixo e para cima, o que ali não poderia acontecer, estava praticamente vedada a circulação de bovinos naquela canada.

O trajecto da Canada da Fontecima era simples e de razoável qualidade. Partindo-se do Alagoeiro, junto a um poço que ali havia para o gado beber água, voltava-se à direita, evitando o caminho da Ribeira. Subia-se uma pequena ladeira, esta sim bastante larga, paralela à casa do Luís Fraga, ao cimo da qual ficava a Casa da Água, precisamente no sítio onde se situava uma nascente ou fonte que dava nome ao local e cuja água abastecia toda a rede da Fajã, cujas obras se iniciaram em Outubro de 1948, concluindo-se quatro anos mais tarde. A partir da Casa da Água, entrava-se na canada propriamente dita, iniciando-se o seu trajecto com uma pequena curva ao lado daquela casa. Depois uma recta, ladeando pequenos serrados, dela separados por altas e grossas paredes de pedra dupla. No fim da recta uma curva acentuada à esquerda e logo a seguir uma mais suave à direita. Aí havia uma pequena ladeira e as paredes circundantes eram bem mais altas e imponentes. Após o cimo da pequena ladeira, precisamente no sítio onde meu avô materno tinha uma pequena terra de milho e batata-doce, entravámos em nova recta, paralela ao caminho da Bandeja, que ficava mesmo ali ao lado. Daí, por ser lugar mais alto, já era permitido aos transeuntes descortinar ao longe uma parte do casario da Fajã, do mar e a Ponta. Esta vista, no entanto era, vezes sem conta, obstruída, porque aqui as paredes já eram bem mais altas e grossas, impedindo quem por ali passasse de avistar o que quer que fosse, a não ser uma pequena nesga do céu. De seguida uma nova curva à esquerda, seguida duma recta ladeada a Sul, por uma parede altíssima e estávamos no fim da canada, a desembocar no caminho dos Lavadouros, precisamente no cimo da ladeira da Ribeira e quase no início da do Batel.

A Canada da Fontecima, como outros imponentes caminhos da Fajã Grande, uma interessante construção a marcar um espaço e um tempo, mediante o esforço, a bravura e o empenhamento dos nossos antepassados

Das onze Filarmónicas fundadas na ilha das Flores, ao longo da sua história, cinco pertenciam ao concelho das Lajes. No entanto, destas apenas uma ainda está em actividade – a filarmónica União Operária de Nossa Senhora dos Remédios, da Fajãzinha – aliás a única filarmónica sobrevivente de todas as que existiram na maior ilha do grupo ocidental, açoriano. Essas filarmónicas foram as seguintes:

Filarmónica Nossa senhora do Rosário, das Lajes – Esta filarmónica foi fundada nos finais do século XIX, por volta do ano de 1885, sendo na altura pároco nas Lajes o padre Tomé Gregório de Mendonça. Na sua criação esteve um grupo de lajenses, entre eles João Maurício de Fraga, Lúcio Maurício da Câmara, José Pimentel Soares e José Francisco Pereira. Organizada de forma insipiente e pouco organizada, a filarmónica decaiu, alguns anos depois, sendo reorganizada nos primórdios do século XX, sob a direcção de Jerónimo Lino de Freitas. Depois de mais uma década de actividade, voltou a dissolver-se para ser novamente reorganizada em 1932, sob a égide do professor Manuel da Silva Júnior e pelo pároco de então, padre José Francisco Soares, mantendo-se em actividade até 1958. Sob a direcção do padre Luís Pimentel Gomes, também pároco das Lajes, nessa altura, foi reactivada, mantendo-se em actividade até aos finais do século passado.

Filarmónica Lombense Manuel Martins, da Lomba – Foi fundada em 1931 pelo pároco de então, padre Francisco Vieira Soares, natural das Lajes do Pico, que ali paroquiou alguns anos. Mais tarde foi transferido para a Piedade do Pico onde fundou uma outra filarmónica a União da Piedade. Os fundos para a compra do instrumental foram obtidos por emigrantes florentinos nos Estados Unidos e teve em Manuel Martins que ofertou os primeiros 22 instrumentos, o seu principal benfeitor. Essa a razão porque recebeu o seu nome. A sua apresentação em público, com instrumental branco, o que era inédito no distrito da Horta, ocorreu no dia da festa do padroeiro, São Caetano, 7 de Agosto. Na organização e primeiros ensaios, o padre Francisco Vieira Soares foi auxiliado por Lino Augusto Santos. Esta filarmónica deslocou-se por várias vezes à fajã Grande para actuar na Festa da Senhora da Saúde. Em 1949, porém, ao ser convidada mais uma vez para abrilhantar aquela festa e depois de confirmar a sua presença, acabou por faltar nas vésperas daquela festa, sendo impossível, nessa altura, contratar outra. O povo ficou triste e revoltado a tal ponto que decidiu criar uma Filarmónica na própria freguesia.

Filarmónica União Fazendense da Califórnia, da Fazenda: Foi fundada, na Fazenda das Lajes, em 1938, por José Arlindo Armas Trigueiro, Francisco de Freitas Silva, António Rodrigues Gomes, Francisco Coelho Gomes e Luís Armas Gomes. Manteve a\sua actividade até 1961, sendo reorganizada, alguns anos depois, pelo pároco, padre José Vieira Gomes. Foram seus regentes José Armas Trigueiro, José Nunes da Silva e José Francisco da Rosa.

Filarmónica Nossa Senhora da Saúde da Fajã Grande – Foi fundada em 1951, fazendo a sua apresentação no dia 7 de Setembro desse ano. O instrumental e equipamento foi pago com o leite do primeiro domingo de cada mês, pelos sócios da Cooperativa de Lacticínios. Após várias interrupções, foi reactivada em 1979, sendo, nessa altura mudada a sua sede, da Casa do Espírito Santo de Cima para o antigo palheiro de gado do David, na loja da casa do António Teodósio, na Fontinha. Foram seus regentes, inicialmente José Mancebo Fagundes e, após a sua reactivação, José Lourenço Fagundes.

Filarmónica União Operária Nossa Senhora dos Remédios, da Fajãzinha – Foi fundada e inaugurada em 1953. Depois de alguns anos de inactividade, foi reorganizada em 1985, sendo a única filarmónica da ilha que se mantem em actividade, abrilhantando, actualmente, com um calendário muito preenchido, todas as festas da ilha. Depois da extinção da Filarmónica da Fajã Grande, alguns músicos, transitaram para a da Fajãzinha, ajudando assim a que esta sobrevivesse até aos tempos actuais.

QUE FAZEIS AÍ SOLDADO

Poema oral, recitado e cantado, antigamente, na Fajã Grande e recolhido por Pedro da Silveira, em 1944. Foi-lhe recitado por José Inácio da Ponta, tendo-o publicado na Revista Lusitana, Nova Série,em 1966:

«Que fazeis aí, soldado, ao rigor da estação?»

«’stou metendo sentinela, aindas que nã seja um cão.»

A camisa era tão grossa, serviria de colchão.

«Ei-lo aqui o triste pago que dão a este batalão.»

As calças eram tão largas, faziam sombra no chão.

«Ei-lo aqui o triste pago que dão a este batalhão.»

As meias eram tão ralas, boas de pescar camarão.

«Ei-lo aqui o triste pago que dão a este batalhão.»

Os sapatos eram tão grandes, palmo e meio de tacão.

«Ei-lo aqui o triste pago que dão a este batalhão.»

A comida era tão pouca, em vez de carne feijão.

«Ei-lo aqui o triste pago que dão a este batalhão.»

«Amigo se queres, vamos ao palácio reclamar.

Se o rei não te der razão, cá stou eu p’ra agrumentar.»

O rei nim uma num duas, como se fosse de pau.

A rainha antão dizia: «Deves de ser grande marau.»

«Eu não sou nenhum marau, nim pretendo a Angola;

Só quero o meu livramento, não peço nenhuma esmola.»

Aqui transcrevo na íntegra, mais um texto de Emílio Porto, publicado em Agosto passado, no seu blog “Alto dos Cedros”.

“E ocasiões para revelar o que somos e temos.

Uma festa das nossas aldeias – seja ela qual for – revela sempre alguma coisa das pessoas, das suas capacidades, dos seus sonhos satisfeitos. Por estes dias – no Bodo de Leite, no São João Pequenino, na Feteira, na Baixa, na Liga dos Amigos, na Mãe de Deus, e talvez ainda mais – somos confrontados com imagens de piedade e devoção, de trabalho e canseira em terra e no mar, de cor e luz, de arte e beleza.

Os palcos movem-se, e quando é preciso constroem-se com meia dúzia de paus de faia ou de incenso, como se fazia antigamente, e sobre eles desfilam os mais diversos artistas, talvez os menos cotados, que não conseguem lugar nos grandes aglomerados.

Também neste campo da arte, nem todos conseguem ir aos melhores palcos. É como no futebol: nem todos sabem jogar como o Falcão ou o Nuno Gomes.

Mas têm lugar e têm espectadores que os admiram e lhe batem palmas. Quem passou por esses lugares de festa popular deu por isso. E, se calhar, alguns deles agradaram mais do que outros que tiveram a sorte de pisar os palcos das maiores festas. Vimos isso com uma dança da Terceira, na tarde de domingo passado, sobre um palco improvisado no poço da Telha. A festa do Chicharro era naquele sítio.

E nas Ermidas e Paroquiais, quando é o caso, o religioso tem o seu lugar. É bom lembrar que a festa tradicional, geralmente, começa por aí. Mas, cuidado: já não é assim em todos os lugares. As festas ficam-se apenas pela presença secular e laica. Uma atitude que importa respeitar, pois está em conformidade com as vontades das comunidades. E ninguém se admire se a tendência aumentar e se transformar em costume. Nos dias que correm, mais se acentuam as distâncias entre as cúpulas do poder e os povos.

Todavia, a ideia do poder absoluto já não consegue impor-se. Cada vez mais há pessoas que aceitam partilhar. O poder e os povos juntam-se, dão as mãos e fazem. Foi o que vimos no porto da Baixa – todos se juntaram, todos andavam satisfeitos, não faltou nada sobre a mesa posta em cima do cais.

Os produtos do mar abundaram e a crise andou longe, ninguém deu por falta dela. Tudo isto é o resultado de livre aceitação, de crença. Quem acredita faz o seu caminho. Os povos na concretização dos seus objectivos juntam-se, e fazem.

Ali recordei o Padre João Domingos – com quermesse instalada a favor da homenagem a ser-lhe prestada no aniversário dos seus 100 anos no ano de 2012. Foi ele que apontou o rumo certo – os melhoramentos do caminho da Baixa, a central comunitária, as canseiras burocráticas para a Ribeirinha ser freguesia; e nunca deixou de sentar-se diante das crianças a ensinar o Pai Nosso e a Ave Maria. Muito do seu exemplo foi determinante no ambiente urbano da freguesia. Era teimoso, diz-se, mas nunca foi absoluto, e deixou trabalho feito.

Outra lembrança de acontecimento importante foi o ramal que dá acesso àquele porto, antes por entre falésias íngremes de estafar quem subia ou descia. Foi obra das gentes da terra, sem projectos, nem adjudicações, nem concursos, obra do 25 de Abril, logo inaugurada pelo Comandante Sá Vaz, que veio da Horta, propositadamente para aquele efeito. Aquele Ramal continuará a ser popularmente chamado de Ramal do Porto da Baixa. No meu pensamento será o Ramal “Comandante Sá Vaz”. Foi eu próprio, que o fui buscar à Madalena para esse efeito, e depois voltar a colocá-lo no cais de regresso à Horta.

Todas estas imagens me ocorreram durante a tarde de domingo passado, no arraial da festa do Chicharro, bem saboroso para quantos o provaram. Ainda recebi um convite para ir ao São Caetano, lá no porto do Galeão. Coitado deste santo que nunca teve nada por causa da proximidade do Bom Jesus! Talvez por essa razão, recordando fracassos antigos, optei por ali continuar, com o canal em frente e São Jorge, invejoso, a olhar para esta rampa, toda colorida, pequena, mas cheia, muito cheia a transbordar

 Importa, sim, olhar para as capacidades e os contributos que as comunidades põem em marcha na concretização dos seus momentos escolhidos, para celebrar o que lhes vai na alma, seja de fé seja de cidadania. Importa muito ir por onde indicam e gostam. Não gostam mesmo nada é de quem lhes imponha, seja lá o que for.

Este mês tem sido pródigo. Nas esplanadas e comércios abundam os programas. São sinais positivos que importa realçar.”

O CALHAU DO TOURO

Misterioso, enigmático, mítico e assombroso, o Calhau do Touro era um gigantesco pedregulho encastoado na primeira relva do Mato, ali mesmo logo ao cimo da Rocha que, em certos dias, vomitava urros uivantes, gemidos dolentes, rugidos assustadores, como se fosse um monstro vivo e verdadeiro. Um espanto, aquele calhau! Uma das mais interessantes e misteriosas maravilhas naturais da Fajã Grande! Tratava-se, na realidade, de um normal mas gigantesco pedregulho, possivelmente arrancado a algum pináculo, lá das alturas do Queiroal ou da Água Branca, por chuvas diluvianas e intempéries catastróficas e que arrastado pelas encostas macias e verdejantes do Rochão do Junco, por fortíssimas rajadas de vento, associadas à força da gravidade, saltitando por valados, rebolando por grotões, deslizando por socalcos, se viera alapar ali, inerte, zurzido, resvalado, quase morto. O Calhau do Touro, com os seus uivos angustiantes e berros medonhos assustava quantos, desprevenidos e alheados, passavam por ali.

De vereda em vereda, de socalco em socalco e de grotão em grotão, o Calhau do Touro, em tempos muito recuados e de que nem memória havia, quando a ilha ainda não parecia ilha, naturalmente viera parar ali, logo acima da Rocha, na primeira belga planáltica que encontrara, a separar os atalhos que, na direcção do Norte conduziam ao Queiroal e para os lados de Nordeste permitiam aos transeuntes chegar ao Curral das Ovelhas, atingir o Rochão do Junco, alcançar a Burrinha e a Água Branca ou até seguir para Santa Cruz ou outras localidades do Nordeste da ilha.

Alapado ali, o Calhau do Touro ali permanecera ao longo dos séculos, talvez desde de que a ilha era ilha e ali havia de fixar-se para sempre, manso, tranquilo e calado em dias de tempo calmo e de ventos de Sul e de Oeste, que a Rocha íngreme e altiva impedia de lá chegarem. Mas nos dias de grande ventania, com ventos muito fortes a soprarem ininterruptamente do Norte e do Nordeste, com fortes rajadas, a enfiarem-se encanados por aqueles descampados abaixo, era um lamento perene e intercalado, um berreiro medonho e assustador, uma gritaria que nunca mais acabava. Parecia que tinha o diabo no corpo, aquele maldito calhau!

Tanto berrava, tanto gritava, tanto rugia que assustava os que por ali passavam, sobretudo os desprevenidos ou quantos desconheciam os dotes estridentes daquele misterioso e estranho prodígio da natureza.

Mas, afinal e bem vistas as coisas, o Calhau do Touro, simplesmente, não passava de um enorme pedregulho que rolara pelas encostas do Queiroal e do Rochão do Junco e viera parar ali quase ao cimo da Rocha, na primeira relva a que se chegava, logo após a Cancela. A sua localização e o seu exagerado tamanho faziam com que, fustigado por certos ventos, se formasse ali uma espécie de eco que se repercutia pelos arredores, assemelhando-se aos berros de um touro. Era essa a razão do seu epíteto.

Todos os que lidaram de perto com ele, sobretudo nos últimos tempos, de certo que ainda se sentem atordoados com o seu repentino desaparecimento, com a sua morte súbita e inesperada. Emílio Porto faleceu, no passado dia doze, durante um ensaio do Grupo Coral das Lajes do Pico, por ele fundado em 1983, e do qual sempre foi maestro e o principal responsável pela organização de todas as suas actividades musicais. A sua morte deixou na maior apreensão e nostalgia a família, os seus amigos mais próximos e todos aqueles que, de perto ou de longe, com ele conviveram e trabalharam.

Conheci o Emílio Porto, quando em Setembro de 1960, demandei, pela primeira vez, o Seminário de Angra. Recordo-me de o ver assomar à janela do seu quarto, voltada para os “miúdos”, sempre sério e pensativo, a descer os degraus dos teólogos, a correr para a sala seis, a fim de chegar a tempo à aula de Teologia, a jogar voleibol no campo junto à cozinha, a percorrer as ruas de Angra, com passagem pelo pátio da Alfândega e, sobretudo, a reger, com mestria, elegância e emoção, a capela do Seminário. Frequentava o décimo primeiro ano e eu, o terceiro. As normas de um regulamento interno, rígido e rigoroso, impediam a comunicação diária entre os alunos das três prefeituras, quebrada apenas, nas manhãs de Natal, nos dias de Festa, nos ensaios do orfeão e pouco mais. Não era de muitas falas, nem se metia em graçolas ou brincadeiras com os mais pequenos. Tinha, no entanto, um ar alegre, prazenteiro, solene, digno, concentrado e trabalhador, revelando já dotes extraordinários e inexauríveis, a nível da formação musical.

Anos mais tarde, embora em tempos diferentes, cruzei-me com ele em São Caetano do Pico, substituindo-o, nas inúmeras actividades em que ele ali se envolvera e a que procurei dar continuidade e prosseguimento. Em São Caetano do Pico, Emílio Porto, para além de granjear o respeito, a consideração e a estima de toda a população, deixou uma obra notável. Dedicado à juventude, que acompanhava em todas as actividades e com quem se envolvia em todos os acontecimentos, com destaque especial para a música e também para o teatro, Emílio Porto fundou o boletim paroquial “Presença”, criou o Grupo Desportivo de São Caetano, tendo adquirido o terreno e construído um campo para a prática do futebol, renovou o Grupo Coral, e adequou as celebrações litúrgicas, de forma brilhante e digna, às reformas protagonizadas pelo Concílio Vaticano II. Dedicou os seus anos de trabalho naquela freguesia, ao serviço da comunidade e dos outros, nomeadamente, dos velhos, dos doentes e dos jovens. Se algo descuidou, foi em prol de si próprio, porquanto viveu, durante quatro anos, acompanhado familiares, em precárias e degradadas condições de habitabilidade.

Mais tarde serviu o exército português no ultramar, durante a guerra colonial, realizando duas comissões de serviço em Angola. A forma como o fez, estabelecendo a amizade como estandarte da guerra e a verdade como lema de vida, granjeou-lhe o respeito, a consideração e a estima de quantos com ele conviveram. A atestá-lo os variadíssimos testemunhos de quantos acompanhou naquelas missões e os encontros regulares que, passados quarenta anos, ainda mantinha com os seus camaradas de guerra.

A partir de então, perdi-lhe as pegadas. Sei, no entanto, que, quer como homem, quer como cidadão ou professor e ate como político, teve sempre um comportamento digno, nobre e exemplar, pautado por um empenhamento honesto, por uma competência fluente, por uma dignidade desmedida e por uma humildade transparente, que nem o Grau de Comendador, com que foi agraciado pelo presidente Jorge Sampaio em 2008, nem a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico que a Assembleia Regional dos Açores lhe atribuiu, haviam de desfazer.

Quis o destino que nos reencontrássemos, há uns anos, no Mucifal. A partir de, então, restabelecemos uma amizade recíproca, íntima, sã e enternecedora, a nível individual e familiar. Não apenas em encontros frequentes, que agora podíamos fruir, mas também no “Alto dos Cedros” e no “Pico da Vigia”, dia após dia, íamos fazendo deslizar memórias de um passado que, afinal, tinha muito em comum.

Na madrugada do passado dia doze, fui fulminado, com a notícia empírica e real da sua morte. Emílio Porto falecera na véspera, durante um ensaio do seu Grupo Coral. Nesse dia, algumas horas antes, havíamos conversado e programado a sua visita ao Norte do país e que ele próprio já anunciara através da Internet. Na noite do dia seguinte, eu havia de o ir esperar à estação de Campanhã, no Porto.

A FONTE

Quando eu era criança, em minha casa não havia água, a não ser a da chuva que penetrava por um ou outro buraco existente no telhado, ou pela janela da sala, quando, por esquecimento, a deixávamos aberta e o vento soprava de oeste. Para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para se passar um pingo de água nos olhos pela manhã, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha era preciso ir buscar água à fonte, tarefa de que, lá em casa, eu era incumbido vezes sem conta.

Mas eu adorava ir à fonte, pese embora muitas vezes tivesse que o fazer carregando, dois pesadíssimos baldes de madeira cheios de água. A minha sorte e fortuna era de que a fonte, para além de ficar perto da minha casa, nunca secava, tinha sempre água fresquinha, sempre a correr, sempre a jorrar, sempre a respingar sobre o pedestal onde se colocavam os baldes, sempre a perder-se por entre pedregulhos e esgotos, sempre disponível para que eu, quando ali fosse, enchesse os baldes ou saciasse a minha sede.

Na realidade eu ia à fonte, muitas vezes. Umas, para encher, até transbordar, o vasilhame que transportava vazio e que, no regresso, teria que carregar bem cheio e pesado, outras apenas para locupletar-me naquele manancial de frescura voluptuosa, deslumbrante e infinita. O ir à fonte era um vai e vêm contínuo, frenético e fascinante, apesar de cansativo e perturbador. É que da fonte, para além do fiozinho que, permanentemente, corria ténue e transparente, emanavam eflúvios sibilantes, provinham súplicas desfeitas, exalavam sonhos de nostalgia e perfumes de transparência. A fonte, com o seu fiozinho cristalino e diáfano, também derramava murmúrios estranhos, ora perdidos entre os musgos esverdeados da peanha, ora suspensos das abóbadas de cimento esbranquiçado que a rodeavam e protegiam. A fonte, com o seu murmurar silencioso, contínuo e permanente, desfazia dissabores, solidificava vivências e permitia que as sombras enigmáticas e confusas do devir se transformassem em sonhos de magia, em perplexidades inebriantes, em arrebatamentos sublimes e transcendentes.

Um dia a estrada passou por ali. Nas casas, incluindo a minha, agora, já havia água em abundância, mesmo que as janelas estivessem fechadas e as telhas quebradas tivessem sido substituídas. Entenderam os arquitectos e construtores da estrada que a fonte estava a mais, já não era necessária ali, porque água, havia muita por todos os lados. Mudaram-lhe o destino, aqueles imbecis, insensatos e inconscientes. Estes arquitectos e construtores, afinal, não sabiam ou não queriam perceber ou entender, que para além daquele fiozinho de água, da fonte também corria um manancial de sublimidade, de ternura e de envolvimento de pessoas. Desconheciam que a fonte também era um lugar de encontros, de vivências, de suspiros e, por vezes, de tormentas, que a fonte era um sortilégio quase metafísico, um abrigo de tempestades e intempéries, um recurso permanente a encontros e fascinações.

A fonte agora está no cimo da Rocha, lá bem no alto, mas sempre com o seu fiozinho ténue, cristalino, diáfano e transparente. A fonte agora está embutida no alto de um monte, altivo e abrupto, difícil de escalar, perdida entre as brumas adormecidas, dispersa entre o emaranhado aflitivo das madrugadas, suspensa no espectro multicolor do arco-íris.

Mas mesmo longe, distante, encastoada nos andurriais escarpados da Rocha, ainda vou à fonte, como ia tantas vezes outrora, quando a fonte ficava mesmo ali, ao lado da minha casa. É verdade que já não acarreto baldes e baldes à abarrotar de água para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para passar um pingo de água nos olhos pela manhã, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha, nem sequer para matar a sede. Agora apenas vou à fonte saborear o perfume adocicado daquele fiozinho suave, cristalino, diáfano e transparente antes que ele, jorrando dia e noite, bem lá do interior da Rocha, se perca por completo, ao cair, solitário, entre os socalcos pedregosos, formando, no chão, uma pequena poça de água que, depois de cheia escoa pelos degraus e encostas da Rocha e lentamente se vai transformando-se num pequeno regato tingido de um azul deslavado, decalcado entre os andurriais, a deslizar em cascatas de tons amarelecidos, sem destino e sem direcção

 

A BALANÇA DE PESAR LÃ

Na Fajã Grande quase todos os lavradores criavam ovelhas no mato. O objectivo principal de uma pastorícia muito específica, em que não havia necessidade de acompanhar os rebanhos, una vez que estes pastavam soltos e em conjunto com os das outras famílias, nos matos, era, simplesmente o de fornecer lã. Na Fajã Grande, salvo uma outra excepção e sempre no caso de ovelhas criadas à porta, nunca se utilizou nem o leite das ovelhas para alimentação das pessoas, nem nunca com ele se fabricou queijo. Criavam-se as ovelhas apenas para dar lã, embora quando abatidas se utilizasse a carne na alimentação e também as peles, que depois de curtidas serviam para forrar os berços e as camas das crianças de tenra idade. A lã, sim, ocupava um lugar de relevo e de grande importância na economia fajãgrandense, pois tinha um papel primordial na confecção não apenas de diversas e variadas peças de vestuário mas também na tecelagem de mantas e cobertores. As casas que eventualmente não tinham ovelhas compravam a lã, a quem tinha produção excedente. Porém, antes de ser preparada e trabalhada e, sobretudo antes de ser vendida, era necessário pesar a lã. No caso de ser vendida, para estabelecer e definir preços, no caso de a usar em proveito próprio, para saber a quantidade necessária para a confecção daquilo que se pretendia obter. Por essa razão em muitas casas existia a tradicional e típica “balança de pesar lã”. Quem não a tinha e dela precisasse, ia pedi-la emprestada aos vizinhos, sempre dispostos a oferecer e disponibilizar ajudas, préstimos e favores.

Estas balanças obedeciam a uma estrutura muito específica, porquanto sendo o objecto a pesar muito volumoso, os braços da balança não podiam ser iguais. Assim um deles, o dos pesos era muito pequeno e o contrário, ou seja aquele em que se pendurava a lã era muito comprido. As balanças de pesar a lã eram feitas geralmente de ferro mas também as havia de madeira e tinham uma haste vertical, com um gancho na parte superior, de forma a pendurá-las durante a pesagem, e um eixo na inferior, na qual balanceava uma haste horizontal que se equilibrava em função do princípio das alavancas, em que duas forças, neste caso duas forças suspensas, se equilibram quando o produto da força potente pelo seu braço é igual ao da força resistente também pelo seu braço. Por isso mesmo, o braço onde se pendurava a lã tinha que ser contrabalançado em peso, devido à pequenez daquele em que se pendurava o respectivo peso. Em cada um dos lados da alavanca, suspensos na parte de baixo, estavam encravados dois ganchos para nele se pendurarem os pesos, num lado e a lã no outro. Acresce dizer-se que os pesos eram pedras furadas, devidamente quantificadas em termos de peso, de forma a se poderem prender no gancho.

Toda esta geringonça estava de tal maneira bem construída e balança de tal modo afinada e aferida que nunca havia enganos na pesagem ou se os havia ninguém dava por eles.

Balanças de pesar lã, um objecto que outrora teve grande importância na vida dos nossos passados, na própria história da freguesia e até na economia fajãgrandense. Naturalmente como tantos outros, ter-se-á perdido no tempo e nas memórias.

Os romanos chamaram-lhe Calipus, os árabes Xâter e os portugueses Sado. Nasce na serra do Caldeirão, passa ao lado de Ourique, correndo para oeste, na direcção do mar. Ao chegar à vila de Alvalade, porém, muda o seu curso, isto, é, corre para norte, fenómeno inédito na orografia portuguesa, acabando por ir desaguar em Setúbal e não em Santiago do Cacém, como seria mais natural.

Segundo um mito pre-Abbevilense, Eros, filho de Erebo e da Noite, força suprema, invisível e omnipotente, elemento primordial do universo, ter-se-á, certo dia, envolvido de ternuras e amores com Afrodite, atraiçoando Caos, sua natural e originária companheira, dona e senhora do espaço sobrenatural e infinito. Desta adúltera relação nasceu Saláceo.

Para proteger o filho das iras de Caos, Eros e Afrodite esconderam Saláceo num bosque, situado numa pequena serra alentejana, precisamente naquela que hoje é denominada por serra do Caldeirão. Caos, no entanto, descobriu o embuste. Furiosa, quis vingar-se. Para isso procurou o ilegítimo rebento, escondido nos barrocais e contrafortes do Caldeirão, transformando-o num pequeno e ténue fiozinho de água, que, brotando daquela serra, começou a correr, lenta e vagarosamente, ao longo da enorme planície alentejana, dirigindo-se para o Oceano, onde seria totalmente destruído e desfeito, para desespero dos seus progenitores.

E o jovem Saláceo, alheado das intenções malévolas de Caos, iniciou, alegremente, o seu percurso a caminho do mar, descendo encostas e barrocais, perdendo-se entre florestas e barrancos, atravessando campinas e prados, seguindo o destino que, maquiavelicamente, lhe fora imposto: caminhar em direcção à sua própria destruição.

Porém., ao chegar à enorme planície que hoje abrange as terras de Alvalade, surgiu-lhe a caminho o jovem Aladde, filho do Oceano e duma Nuvem, disposto a salvá-lo, impedindo-o de continuar, o caminho para o Oceano e, consequentemente, para a sua própria destruição.

Os ódios de Caos, porém, voltaram a acender-se e a incendiar-se. Os dias tornaram-se escuros e as noites trevas contínuas e, sobre a face da terra começaram a cair, incessantemente, durante quarenta dias e quarenta noites, chuvas diluvianas, que encheram os lagos e fizeram transbordar os rios. As águas do Oceano também se revoltaram e, transformando-se em ondas gigantescas, mais altas do que árvores e maiores do que montanhas, ameaçavam, impiedosamente, galgar e destruir a Terra. Estas ondas, acompanhadas de tumultos estrondosos e do ribombar de trovões, invadiram a Terra, na ânsia de a engolir, desfazendo-se e misturando-se à restante água que cobria a outra parte da superfície terrestre, em horrível tremedal. O Oceano transformou-se, assim, num terror infinito e a terra foi condenada a uma destruição total.

Mas Eros não desistiu e voltou a tentar salvar Saláceo das iras ameaçadoras de Caos. Para isso, chamou Aladde, que vivia desesperado. Eros atribuiu-lhe a incumbência de ordenar, acalmar e a apaziguar todas as águas existentes sobre superfície da terra alentejana – dos lagos, dos rios e das fontes – permitindo assim que a calma e a tranquilidade voltassem à superfície da Terra e Saláceo fosse salvo.

Aladde bem tentava pôr termo a estes horrores e a estas ondas destruidoras, ignorando o destino da enorme planície, agora transformada em medonho escarcéu, quase condenada à destruição, mas sentia-se  impotente para dominar aquelas forças que destruiriam tudo, incluindo o jovem Saláceo. Para o ajudar, Eros voltou, mais uma vez à Terra, trazendo-lhe Alba, a mais bela, a mais brilhante e a mais poderosa estrela do firmamento, por quem Aladde, de imediato, se apaixonou. Alba brilhava no universo infinito, com uma intensidade invulgar e um poder extraordinário, desafiando os próprios deuses, que temiam a sua luminosidade e grandeza. Quando se aproximou de Aladde este solicitou-lhe auxílio e socorro para quantos se viam vítimas daquelas catastróficas enxurradas.

A estrela condoeu-se de quantos sofriam as iras infinitas de Caos. E regressando ao firmamento, voltou, pouco depois, montada em nédia hacaneia, acompanhada de um enorme séquito, onde pontificavam carros de fogo, puxados por escorpiões e protegidos por gerifaltes, transportando miríades de gigantes. Lançando o seu brilhante e luminoso poder sobre todas as águas, tanto as que cobriam a superfície da Terra, como as que emergiam do Oceano, expulsou-as da extensa planície. Depois, fazendo descer os gigantes dos carros de fogo, construiu, para defesa e protecção da grande planície, um enorme e alto muro, que mais tarde se transformou em montanha, de que a actual serra do Cercal é um resíduo.

Mas o pobre e ainda frágil Saláceo, apesar de salvo das águas diluvianas e daquele medonho escarcéu, devido à construção de tão imponente montanha, ficou totalmente impedido de seguir o seu lento e vagaroso curso para o mar. Então Alba e Aladde, decidiram mudar-lhe o destino, fazendo-o deslizar para norte e fortaleceram o seu caudal, juntando-lhe as águas que, sobrando do dilúvio, escoriam ainda pelas encostas do Cercal, com outras que continuavam a brotar das cercanias e que hoje formam os rios de Campilhas, Alvalade e S. Domingos.

E Saláceo, ou melhor o rio Sado, seguiu, o seu rumo para norte, alimentando e dando vida a toda a planície alentejana, enquanto Alba e Aladde, verdadeiramente apaixonados, uniam os seus destinos e, para vigiar Saláceo, fixaram-se, mesmo ali, naquele campo cercado pelo enorme muro, no sítio onde hoje é a vila de Alvalade.

O pequeno cerrado que o senhor Ambrósio possuía na Assomada, geralmente, não era “trilhado” pelo gado. Como era uma terra forte, soalheira e abrigada do vento, o trevo, ali semeado por entre o milho já espigado, havia de ficar para a semente. Mas o diabo era a passarada. Quando as espigas amadureciam e se tornavam loiras, acinzentadas, à espera que secassem e ficassem prontas para a apanha, bandos e bandos de pássaros, demandavam-no, fustigados pela fome, debicando aqui, escarafunchando acolá, dando cabo de tudo. Um estrago enorme, um prejuízo incalculável, uma catástrofe descomedida, um dano que era imperioso evitar.   

De toda a passarada que, aos poucos, ia depenicando, destruindo e dando cabo das espiguitas que, firmes e hirtas, aguardavam a hora da apanha, a fim de serem guardadas em sacos de serapilheira e ficarem à espera da sementeira do próximo ano, os piores, os mais atrevidos, os que mais comiam e destruíam eram os tentilhões. Biquitos sempre abertos, escorraçados das terras negras e vazias de sementeiras ou acossados das matas pelas ventanias outonais, ali estavam eles, os marotos, acaçapados sobre as paredes, nervosos, a cantarolar para esquecerem a fome, à espera da primeira oportunidade para atacarem massivamente as pobres e indefesas espigas, levemente ondeadas pelo vento, mas bem secas, adocicadas e apetitosas. Os machos eram mais coloridos, com uma coroa azul-acinzentada no cocuruto, a face, peito e barriga de cor vermelha pálida e um manto escuro a cobrir-lhe o dorso e as asas e, distinguiam-se muito bem das fêmeas e dos juvenis, mais pequenitos e com a cabeça e o manto de tons castanho-oliva e o ventre claro. Depois de cheias as barriguitas era um chilrear contínuo, um desassossego alvoraçado, um esvoaçar de um lado para o outro, cruzando os ares em bailados sublimes, em cânticos maviosos, aconchegando-se nos seus afagos amorosos.

O senhor Ambrósio é que não ia nos ajustes. Sempre que por ali passava, enxotava-os, insultava-os, caluniava-os, chamava-lhes nomes e ameaçava-os de que havia de dar cabo deles todos, havia de pilá-los um a um, aqueles malditos, aqueles imbecis, aqueles destruidores da propriedade alheia. Missão impossível, a do senhor Ambrósio, porque, mal virava as costas, os marotos voltavam à safra, a depenicar por aqui e acolá, limpando as espigas de uma ponta a outra.

Nada mais podia a fazer, pensou o senhor Ambrósio, do que pôr-lhes lá uns espantalhos. Muniu-se de canas, de atilhos, de trapos velhos que abundavam lá em casa e toca a amarrar as canas em cruz e a revesti-las com calças, camisas, casacos e lenços de merino, tudo velho e em desuso, mas a simular perfeitas mas estáticas criaturas humanas.

Mas depressa se aperceberam os atrevidotes dos tentilhões de que aquilo era embuste. Quedos e mudos, aqueles figurões podiam ali estar o dia todo que nunca os haviam de incomodar, nem muito menos os impedir de encherem o papo e de se regalarem com tão farta comezaina. O senhor Ambrósio, no dia seguinte voltava à terra e a desgraça ainda parecia maior e a perda mais avassaladora.

Não se dando conta de que havia outro meio de salvar as suas sementes de trevo, o senhor Ambrósio decidiu-se por mandar para a sua terra, a filha, a Josefina, moça esbelta e bonita, mas muito meiga e mais afeita às lides domésticas do que aos trabalhos do campo. De início manifestou decidida recusa, mas perante a insistência autoritária do pai, teve que anuir.

E lá ia, todas as manhãs, Assomada acima, tristonha mas airosa, contrariada mas elegante, revoltada mas graciosa, de varinha na mão, cestinha no braço, disfarçada de “enxotadeira”, na demanda dos tentilhões da terra da Assomada.

Num dos primeiros dias, porém, deparou-se, logo à entrada do terreno, com um tentilhãozito muito pequenino, atirado para o chão, de papo para o ar, a tremer de frio, quase inerte. De certo, que se o não ajudasse, o “piauzinho” havia de morrer. Pachorrenta e cuidadosa, meiga e ternurenta, fez-lhe ali mesmo, na aba duma pedra, um pequenino linheiro, com algumas folhas retiradas do restolho. Aqueceu o infeliz passarito nas suas mãos, bafejou-o com o seu hálito e mimou-o com um carinho excessivo e um afecto desmesurado e, colocando-o no ninho, ia apanhando pequeninos bagos de trevo que lhe enfiava pelo biquito aberto, esfomeado e impertinente. Já farto, o petiz arrebitou e adormeceu. Josefina retirou-se, velando-o de longe. Não tardou muito. Um casal de tentilhões veio, timidamente, poisar nos arredores e, saltando de pedra em pedra, de espiga em espiga, foi-se aproximando do pequeno linheiro, onde o tentilhãozinho dormia sossegado e tranquilo, ao mesmo tempo que um bando de tentilhões, sobrevoava em revoada, entre cânticos e danças, a paraninfa de um dos seus semelhantes. Até parecia que estavam a agradecer-lhe!

O pior foi que, no dia seguinte e para espanto seu, o senhor Ambrósio concluiu que afinal, mais nada havia a fazer, pois os malditos dos tentilhões ainda maior prejuízo lhe haviam dado no trevo que ele com tanto esmero cultivara e cujas espigas pretendia guardar para semear, no ano seguinte.     

O senhor António Barbeiro morava na Assomada, uns escassos metros a seguir à minha casa, mesmo ali na entrada da Canada do Pico, numa casa de dois andares. O piso superior era destinado à habitação, sendo que no rés-do-chão ou primeiro andar se situava o palheiro das vacas, como era hábito na maioria das casas da Fajã, nos anos cinquenta, e, na parte virada a sul, a oficina, de carpinteiro, de relojoeiro, de faz-de-tudo.

Na realidade, o senhor António Barbeiro, no seu tempo, era o que na realidade se poderia considerar um verdadeiro “self-made man”. Tudo o que sabia e conhecia, quer na teoria quer na prática, apreendera-o por si próprio, graças à sua grande inteligência, à sua habilidade natural e à sua capacidade de aprender quer através da sua própria experiência e de muitas leituras que fazia. Por isso mesmo era, incontestavelmente, o homem mais habilidoso e talvez mesmo o mais inteligente e o mais culto da freguesia. Um autêntico prodígio, este senhor.

Para além de também se dedicar à agricultura e de criar uma vaca, a sua ocupação principal era a de relojoeiro, consertando, com uma eficácia desmedida e sabedoria natural, quantos relógios lhe apareciam na oficina. No entanto e porque ao tempo os relógios ainda nem eram muitos, também se dedicava à carpintaria, construindo sobretudo mobílias de sala e de cozinha, à reparação de todo o tipo de máquinas, desde os fogões primus aos moinhos de café e ainda a pintar interiores de casas, colocar vidros nas janelas e agravos em loiça partida, executando todas estas actividades com notável perfeição e competência desmesurada. Também se dedicava à apicultura, possuindo uma boa quantidade de colmeias, num prédio que possuía em frente à sua casa, produzindo mel de excelente qualidade. Para além disso, era uma pessoa extremamente culta, com quem se podia estabelecer um diálogo interessante, sério e enriquecedor sobre qualquer assunto. De tudo falava, tudo conhecia, dominando alguns pormenores do conhecimento científico, dando opiniões, comentando, com humildade e sabedoria, os temas da actualidade que na altura eram conhecidos na Fajã Grande. Para além de ser um grande pensador, lia muito, o que de facto enriquecia a sua cultura.

Enviuvou ainda bastante novo, vivendo na década de cinquenta com os dois filhos mais novos, a Alda e o Orlando, que algum tempo depois partiram para a ilha Terceira e mais tarde para o Canadá. Por essa altura passou a viver na companhia da senhora Ester, com quem casou alguns anos mais tarde, sendo, no entanto, durante muito tempo o pioneiro, na Fajã Grande, das actuais “uniões de facto”.

Também se dedicava ao fabrico de miniaturas de utensílios de uso tradicional, tendo feito, a meu pedido belo tear.

 

 

 

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